sexta-feira, março 27, 2026

A fisgada da música

  

Um dia minha mãe chegou com um disco (CD) de Caetano em casa. Eu nunca entendi porque ela e meu pai – e os “velhos” em geral – gostavam de Caetano. Quer dizer, entendia – juventude, falsa rebeldia, contracultura e, logicamente, posicionamento perante a ditadura. Mas acho as suas músicas chatas, muitas são ruins mesmo. Vai entender.

Ela ouviu o disco. Um dia de semana de 1993. Eu estudava à tarde, então tive muito tempo para sofrer enquanto Caetano emanava pela casa de manhã. 

 

Minha mãe diz que eu sempre fui muito reativo a música, desde bebê. Certas músicas me faziam chorar, outras me faziam rir, outras calar. Eu sei que se estiver tocando música, eu não consigo fazer mais nada, porque toda minha atenção é capturada por ela. Eu não consigo estudar – confirmei isso ao tirar zero num mini-teste de física, minha segunda matéria favorita, para o qual estudei ouvindo música –, não consigo ler, não consigo escrever. É bastante comum uma música tocar e eu chorar, simplesmente, às vezes sem nem perceber. Tenho um grande amigo que morria de medo quando estava perto de mim e tocava “Na carreira”, de Edu Lobo e Chico Buarque. Acho que só consegui canta-la sem chorar recentemente, idem para “Domingo no parque” de Gil.

 

Estava eu lá vestido, almoçado, esperando para ser levado para a escola, e o disco tocando, até que tocou uma música e por alguns instantes, eu nem lembrava quem eu era. A música acabou, eu levantei e coloquei para tocar de novo. E de novo. E de novo. Eu não entendia o que estava acontecendo, mas sinceramente não estava muito preocupado. Estava apenas ali, ouvindo aquilo repetidamente, quase que em transe.

 

Eu nunca fui muito de faltar aula. Tive meus momentos de filar educação física, mas que duraram pouco. Faltar aula já pronto, almoçado, vestido, e com carona? Difícil.

 

Chegou a hora de sair para a escola. “Vamos, filho.” A resposta saiu de minha boca sem pensar, sem pestanejar. “Hoje eu não vou pra escola.”

 

Na minha memória, minha mãe olhou pra mim, deu tchau e foi embora. Eu nem acreditei, porque ela, apesar de muito compreensiva, não era a favor de faltar aula à toa. Era como se ela tivesse percebido algo que eu mesmo não tinha percebido.

 

Eu passei a tarde inteira ouvindo a mesma música. A música, no repeat, tocou durante umas 2, talvez 3 horas, incessante, e eu ali, sentado no sofá, ouvindo aquela coisa tão impactante, profunda e diferente. Chorei várias vezes naquela tarde, de leve, as lágrimas caindo sozinhas, igual estão agora, enquanto o mundo girava devagar completamente alheio a mim. E eu, a ele.

 

Eu já tinha lido algo de Haroldo de Campos, mas poesia, de forma geral, não é pra mim. É muito pessoal e bem pouco transferível. Aquela, por algum motivo que eu nunca entendi – e eu tentei bastante – me agarrou, hipnotizou, prendeu, apreendeu e por fim, me trouxe de volta, a mesma pessoa, completamente diferente.

 

Foi com muita tristeza, e imensa, irradiante e duradoura alegria, que eu finalmente gostei de uma música “feita por Caetano Veloso”. Que eu nem sei se dá pra dizer que foi ele que fez, já que o texto é de um, o arranjo, de outro, e ele não é o primeiro nem o segundo.

 

Às vezes eu coloco a música pra ouvir no escuro, no fone de ouvido, que nem hoje, e deixo esse universo místico, mágico, maluco, em movimento (que é a música) me levar praquele lugar que um dia, numa manha e tarde de 1993, ainda estou escutando Circuladô de fulô, para sempre.