segunda-feira, abril 21, 2014

África e eu

Um dia eu fui à África. Uma entidade muito interessante.

Normalmente se associa a África aos negros, e vice-versa. Que negros? Aqueles, escravizados, trazidos para as Américas. Aí, às vezes, a gente trata a África apenas como cornucópia de negros escravizados. Ou pensa nela assim.

Por exemplo, na minha formação, eu tive uma dificuldade imensa pra internalizar que o Egito era na África. Porque fazem tanta questão de só falar de África como fonte de escravos (e de brigas de “tribos”) que você acaba não conseguindo associar isso a uma das maiores civilizações que já existiram. E aos persas, e aos mouros que foram à península ibérica. Enfim. O imaginário de África fica sendo - graças à maioria das escolas - limitado a etnias pouco evoluídas em termos de tecnologia e sociedade - porque nem isso as escolas ensinam, que as sociedades eram avançadas em termos de funcionamento, hierarquias, normas, leis, tradições, religiões, cultura.

Quando se “descobre” que não só essas etnias representavam muito mais do que era ensinado, mas que no mesmo continente, sistemas sociais extremamente complexos emergiram, dentro de civilizações altamente avançadas, é meio complicado somar as duas coisas.
Então primeiro você aprende tudo deturpado e separado, pra depois ter que desaprender e unir. É bem mais difícil do que parece. E acaba criando um certo desinteresse por África, porque, que diabos de interessante pode ter um continente (que muitos pensam que é um país) que é apenas um fornecedor de escravo (aquele povo terceira classe, que não serve pra nada, não pensa direito, vive se amotinando, etc)?

Morar em Salvador, por incrível que pareça, me ajuda a não me interessar muito por África.
Não apenas porque as escolas não ensinam, mas porque aqui tem muito negro. Muito. Dizem que é a cidade com maior população negra fora de África. Eu não sei. Mas tem muito negro. Então ver pessoas negras é o comum em Salvador. Quer dizer, deveria ser, mas se você olhar em lugares de nicho de gente rica ou classe média alta, vai ver poucos. Mas fora desse mundo - que é pequeno em Salvador - é todo mundo negro. Ou seja, negro, para mim, não era nenhuma novidade. E o normal é que não nos interessemos tanto por coisas que estão ao nosso redor o tempo inteiro. Na infância/adolescência, embora eu me interessasse muito por nossa cultura e “folclore”, me interessava muito pela mitologia grega e nórdica, que eram coisas alheias à minha cultura. Mas nunca me perguntava por África

Aí fui crescendo, estudando, conversando. E me perguntando “que diabos é África?”. Claro que já não era mais um continente provedor de escravos na minha cabeça, mas ainda tinha aquela confusão de somar tudo aquilo que me fora ensinado separadamente naquele espaço.

Quando se consegue somar tudo… acaba sendo difícil de apreender. Aí se começa a entender porque compartimentalizam. Tem que fazer esforço pra juntar tanta coisa diferente num mesmo lugar. É muito grande, muito diverso, cheio de histórias e culturas.

Eu queria ir à África. Não em qualquer lugar. Eu queria ver as pirâmides, ir em Marrocos, ir no Sahara. Os outros lugares não me interessavam muito, porque na minha cabeça domesticada pela escola, eram apenas cidades, pouco desenvolvidas. Nada de novo. Só gente.

Mas era um plano para algum momento num futuro distante. Minha sede pela história clássica ocidental era mais forte, e meus interesses pairavam primeiro por França, Espanha, Alemanha, Grécia, Itália. A África, nos meus planos, viria depois.

Mas eis que África veio antes. Fomos numa aventura filmar um resgate cultural no Benin. Um grupo das Bahias (não é só África que é plural) indo numa das Áfricas.

E foi a primeira vez que eu realmente parei pra estudar África. Tentar entender os países, geografia, povos, línguas, fronteiras, guerras. Se isso tivesse acontecido antes, meu interesse pelo continente seria maior, com certeza.

Me preparei. Benin. Uma tripinha, espremida entre Nigéria, Togo, Niger e Burkina Faso. É tão pequeno que há quem vá de barco à Nigéria pra contrabandear gasolina. Que é vendida na rua em frascos de vidros amontoados. Tão parecido com a Bahia antiga que, no meio da estrada, perdido em pensamentos, me perguntei o que eu estava indo fazer em Cachoeira.

África se mostrou diferente do que eu pensava. Essa África. Que deveria existir em algum lugar, mas seguramente era muito pouco pra se pensar daquele lugar. Muito estranhamento, mas muito sentimento de conforto. Aquele lugar que você não lembra, mas foi muito na infância, e as coisas vão ficando familiares pra você, ao mesmo tempo que são inéditas.

Óbvio que minha relação com África mudou. Muito. Eu penso bastante nessa viagem, adoro viajar. Não foi uma viagem de passeio, foi de trabalho, mas deu pra conhecer e viver muita coisa.

O que era hipótese mal formulada e mal embasada começa a virar prática. Incompleta, limitada, mas prática. Pisar o chão. Ouvir as vozes. Ver as pessoas. Comer. Olhar. E repensar aquele continente. Repensar o que me foi ensinado, por tantos anos. O que foi negligenciado, o que foi esquecido, o que foi não-dito. E as vezes apagar mesmo, pra escrever por cima.

É um país pobre. Tem pessoas muito felizes e sorridentes. Parece com a gente. Mas é diferente.

Que pena, mundo, que me venderam uma falsa África. Foi muito bom ter ido. Eu não sei se volto ao Benin. O mundo é grande, e eu gosto de conhecer outros lugares. Mas foi importante pra eu sentir de perto, e apagar uma história muito mal contada e, com o tempo, reescrevê-la.

sexta-feira, abril 18, 2014

Símbolos, linguagens, curiosidades

JOGO DA VELHA ou QUADRADO. É como as operadoras no Brasil se referem a
este símbolo. o nome correto é cerquilha, mas há quem chame de antífen
ou cardinal, mas algumas pessoas ainda chamam de diese e sustenido
(que são, esses dois últimos, a mesma coisa).

Em inglês, o nome correto é NUMBER SIGN. mas ninguém chama de number
sign. O mais normal era chamarem de POUND SIGN, e depois, apenas
POUND. No celular é chamado de POUND KEY.  Mas hoje em dia é muito
comum chamarem de HASH (hashtag), principalmente fora dos EUA. E a
tecla do telefone vira, então, HASH KEY.

Lembrando que pound também é a medida de dinheiro na Inglaterra, então
POUND SIGN pode ser confundida com outro símbolo: £

NÃO confundir a cerquilha com o sustenido. A cerquilha tem,
obrigatoriamente, duas linhas horizontais. O sustenido não. As linhas
que seriam horizontais devem ter inclinação para cima, para não
sumirem no pentagrama (partitura). Normalmente as linhas "verticais"
da cerquilha não são realmente verticais, mas PODEM ser. No sustenido,
elas devem ser verticais. Em inglês, sustenido se diz sharp (ou dièse,
do francês, ou diese, do grego).

Em francês, a cerquilha (#) se chama croisillon (na França) ou carré
(No Canadá. Significa quadrado). Já o sustenido se chama dièse.

Em espanhol, a cerquilha se chama almohadilla. Mas as pessoas também
podem (insistem em) chamar de numeral, gato, cuadradillo, grilla,
signo de número, cardinal, michi, tatetí ou vieja.

Já a arroba (@), em inglês é "at", ou "at sign". Em francês, arobase
(se lê arobass). Às vezes se diz arroba, arrobas, arrobe ou arrobaxe.
Há quem diga arobasque. Em espanhol é arroba mesmo.

Asterisco (pelo amor de Zeus, não é asterístico), que a telefonia
brasileira insiste em chamar de tecla estrela (ok, no grego significa
pequena estrela), em inglês é asterisk, embora as pessoas insistem em
chamar de star ou splat (!). Em francês é asterisque, e em espanhol é
asterisco (embora também o chama de estrella).

Já que estamos aqui... reticências em inglês se diz ellipsis, também
chamado de suspension point. Do francês, claro, points de suspension.
Em espanhol, pontos suspensivos. São sempre três. Não quatro. Não
cinco. Não dois, mas três pontos.

Dois pontos, em inglês, é colon. Em francês, deus-points, e em
espanhol, dos puntos. Ponto e vírgula é semicolon em inglês,
point-virgule em francês e punto y coma em espanhol.

E vírgula, em inglês é comma, em francês é virgule, e em espanhol é
coma. Vai entender...



Em alemão, nós temos:
Ponto: Punkt.
Vírgula: Komma.
Ponto e vírgula: Semikolon.
Cerquilha: Doppelkreuz.
Dois pontos: Doppelpunkt.
Reticências: Auslassungspunkte.
Arroba (@): At-Zeichen
Sustenido: Kreuz
Asterisco: Sternchen

sexta-feira, junho 07, 2013

Contos de Westeros - A garçonete.

Maddewn era só mais uma garçonete daquela famosa estalagem no entroncamento mais próximo de Darry. Como a maioria das garçonetes, ela já havia sido estuprada diversas vezes. Mesmo todos sabendo que estupro é um crime relativamente grave, é difícil punir a guarda real, ou a guarda dos lordes, ou mesmo os grupos de auto-proclamados rebeldes que passavam muito por ali. E isso diminuiria a entrada de dinheiro consideravelmente.

Ela não era especialmente bonita. Nem especialmente feia. Ela atraía os homens simplesmente porque estava lá. E eles... bem, eles muitas vezes estavam bêbados, cansados da viagem, sem sexo. E, convenhamos, estupro é uma prática muito comum em Westeros.

Algumas garçonetes resolveram lucrar com a situação, então as estalagens e bares eram, de certa forma, prostíbulos. As garçonetes trabalhavam e, se os homens se interessavam por elas, pagavam. Sem confusão, tudo muito prático.

No começo os donos dos negócios não entenderam o potencial econômico da prática, mas logo perceberam que sem confusão - e com uma divisão do pagamento extra do cliente - as estalagens, em geral, funcionavam melhor assim.

Maddewn, contudo, não participava desse esquema. Ela, por algum motivo que ninguém conseguia entender, se recusava a deitar com um homem sem ter desejo por ele. E, por mais que houvesse sempre outras opções disponíveis, possuir uma mulher contra sua vontade parecia ser algo excitante para boa parte dos viajantes daquelas áreas. Talvez para provar que a moça iria gostar no final ("mesmo que aquela vadia não tenha admitido"), ou simplesmente para demonstrar sua virilidade para os outros homens presentes. Ou quaisquer outros motivos igualmente nobres.

Por causa desse comportamento, Maddewn tinhas sérios problemas com o marido. Ele considerava inaceitável que sua mulher não cumprisse com o papel dela de esposa. Afinal, se tem uma coisa que os homens concordam, é que o casamento é (deveria ser) uma maneira de se conseguir sexo grátis. A qualquer hora. Toda mulher deveria cumprir com suas obrigações: cozinhar, arrumar a casa, cuidar das crianças, lavar roupa e deixar seu marido sexualmente satisfeito. Ela não precisa fazer TUDO - para isso servem as prostitutas - mas tem que estar disponível quando necessário.

Mas com Maddewn não era assim. Continua não sendo assim.

Gilmeroy e Maddewn casaram logo depois do fim da colheita de milho, numa vilazinha distante, próxima de Bandallon. Ele, sapateiro, ela, 12 anos. Nada melhor para seu futuro, já nessa idade, conseguir um casamento com um jovem promissor. Além disso, ele era bonito, Gilmeroy. E tinha algum respeito por sua mulher.

As coisas não começaram muito bem. Sejamos francos, quase nenhum casamento aqui em Westeros começa bem. Os homens não são ensinados a lidar com uma mulher para agradá-la, e as mulheres viram mulheres ainda cheirando a leite materno - por mais que trabalhem desde os 6, 7 anos.

Mas realmente, embora Gilmeroy seja gentil, na cama ele era... despreparado. Foi um começo complicado.

Mas Maddewn engravidou cedo, e seu marido não tinha um apetite sexual muito voraz. Quando ela chegou ao sétimo mês de casada, já estava com 4 meses de gravidez. Foi quando perceberam que ela estava grávida e, de comum acordo, acharam melhor parar com as atividades sexuais para "proteger o bebê". Gilmeroy não entendia nada do assunto - e não tinha mais mãe ou irmãs para lhe ajudar - e Maddewn, bastante esperta, se aproveitou da situação para fugir parcialmente de suas obrigações matrimoniais. No nono mês, ela se mudou para a casa da mãe para ter cuidados mais constantes. O bebê nasceu sem grandes problemas, e 40 dias depois Gilmeroy clamava por seus direitos maritais.

Às vezes Maddewn queria deitar com ele. Às vezes não. E embora Gilmeroy tenha sido compreensivo algumas vezes, em geral ele não aceitava um não como resposta. Assim, constantemente, Maddewn era estuprada pelo marido. Não que isso fosse algo fora do padrão, claro. É apenas um comentário.

Mas ela achava que não tinha que se submeter a isso. "É o sangue da avó", dizia sua mãe. A mãe de Maddewn não entendia qual era o problema da filha. Achava que a filha estava procurando confusão com essa rebeldia sem sentido. Afinal, já diziam os deuses, embora a mulher e o homem, depois do matrimônio,  sejam um só, a mulher deve servir a seu senhor. Ou seja, obedecer seu marido.

Maddewn tinha muito medo dos deuses. Medo e respeito, mas mais medo do que respeito, e boa parte do respeito vinha do medo. E ela não gostava de desafiar as ordens dos deuses. Eles deviam saber o que estavam falando, afinal. Mas ela achava simplesmente absurdo ter que se entregar a um homem sem desejá-lo.

Não porque ela quisesse exercer seu papel de ser humano, exercer sua vontade como uma entidade livre, ou de mostrar ao marido que ela tinha algum poder. Mas sim porque era doloroso. Deitar-se com alguém sem ter vontade, para Maddewn, era extremamente doloroso. Fisicamente doloroso. Claro, seus nervos ficavam destruídos, sua auto-estima caía, sua vontade de viver diminuía. Mas o pior era a dor que ela sentia durante o sexo-não-desejado-mas-consentido tão comum entre homem e mulher. Consentido para que o casamento não acabasse, para que a mulher não apanhasse - e tivesse que se deitar com seu marido de qualquer jeito - para que a vida seguisse o rumo que deveria seguir.

Quando a guarda real passou pela cidade, Maddewn sabia que algo de ruim iria acontecer. A Mão-do-rei estava a caminho de Blackcrown, para averiguar uma questão envolvendo o de sempre: chantagem, traição, insubordinação. Embora a cidade - sejamos francos, mal poderíamos chamar o lugar de vilarejo - fosse pequena, estava na rota da comitiva. Os homens pararam para comer e descansar. Ficaram por 4 horas.

Acontece que na vila quase não havia mulheres. Acontece que os homens da comitiva estavam precisando relaxar. Acontece que depois de algumas bebidas, os guardas costumam perder a cabeça. E aconteceu de Maddewn ser estuprada por 7 soldados sem parar por duas horas seguidas.

Acontece que, embora a Mão-do-rei entenda que seus homens precisam de diversão, entretenimento e relaxamento ocasionais, ele também compreendia os limites do aceitável. E os limites haviam sido totalmente trespassados no momento que os guardas que estupraram Maddewn terminaram por matar seu marido, após ele ter perdido a cabeça ao ver a cena e ter tentado impedir.

Gilmeroy não era um mau marido. Era até gentil, e um pouco bonito.

Que Maddewn tivesse sido estuprada, era algo chato. Mais de uma vez, desagradável. Por sete membros da Guarda Real, por duas horas seguidas, era quase inaceitável. Mas ter passado por isso e ter perdido o marido - que era o pai de seu filho e o sustento da família - era demais.

Sabendo que algo assim não passaria despercebido - e as notícias em Westeros não correm, voam - a Mão-do-rei teria que fazer algum acordo com a moça. Claro, compensações financeiras foram dadas. Dinheiro não é exatamente o problema do reino. Mas como Maddewn poderia continuar vivendo ali, sozinha, sendo lembrada por todos como "aquela-que-foi-seguidamente-estuprada-pela-guarda-real-em-tempos-de-paz"?

Mais algum dinheiro foi distribuído entre os moradores, para que o evento fosse apagado da história, e Maddewn foi convidada a morar em outro lugar.

Quando a comitiva voltava de Blackcrown, ela recebeu suas instruções, e foi assumir seu novo e primeiro emprego como garçonete e ajudante de cozinha e limpeza da Estalagem da Encruzilhada. Uma carroça velha a levou, junto com seu filho sem pai. Maddewn, agora portando sua tatuagem de viúva, obedeceu.

Hoje ela pensa em como era feliz. Sua vida simples, com seu filho, mãe por perto, e apenas um estuprador ocasional, era uma vida muito mais fácil do que a que ela tem agora. Além de trabalhar dez horas por dia, cuidar da criança e da casa, ser estuprada ocasionalmente por desconhecidos, ter adquirido algumas doenças por causa disso, ainda tem que ver seu filho crescer num ambiente nada familiar, entre prostitutas, vagabundos, guardas e outros tipos de escória.

Suas colegas sempre lhe perguntam porque ela não aproveita, já que a vida é assim mesmo, para ganhar um trocado a mais com os visitantes. Mas Maddewn não conseguiria aceitar isso.

quinta-feira, maio 30, 2013

Crianças

Eu me relaciono muito mais fácil com crianças do que com adultos. Além da idade mental ser semelhante, as crianças ou querem conversar ou não querem. Ou querem te ouvir ou não querem. Ou querem falar ou não querem. São muito criativas, riem por que sim, e se retam tb. Não ligam muito pra errar, se interessam por novidades (às vezes, claro), inventam histórias.

Gostam de ser levantadas e giradas loucamente, gostam de correr e gritar, gostam de fazer careta e dar língua, gostam de dançar. Gostam de câmera fotográfica, gostam de tinta e pincel, gostam de lápis de cor. Gostam de preto, de branco, de meio termo. Não tem sexo, ou gênero, ou amarras.

E as crianças sorriem os sorrisos mais lindos. Além, claro, de carregarem a maior das responsabilidades sobre o mundo e, por isso mesmo, pra mim, merecem mais cuidado e respeito até dos que já fizeram muito. Porque estes já fizeram, e as crianças TÊM que fazer. E vão pegar uma barra pesada pela frente.

Todas as crianças têm histórias adoráveis e aterrorizantes pra contar. E uma visão de mundo sempre, sempre, sempre apaixonante. Diferente do que você espera.

Quando criança eu não queria ser adulto. Adultos, por mais legais que fossem - o que não era muto comum - eram chatos. Limitados.

Eu sou MEGA chato, eu sei. Cheio de definições. Inclusive, encarar que o mundo é uma merda me fez ficar menos criança, mais chato. E muito limitado.

Não dá pra voltar a ser criança, e eu não quero. Mas é bom, de vez em quando, sentir o gostinho da beleza das coisas, da novidade, das possibilidades diferentes, da surpresa.

Por isso que eu leio, por isso que eu escrevo, por isso que eu trabalho com linguagem. Por isso que eu tento fotografar, tocar violão, jogar futebol. É pra lembrar de como é ser criança. E ser feliz, um pouco, sendo adulto.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Chove.


Chove.

Chove, porra.

Que porra de calor infernal faz essa cidade. Não cai uma porra de uma gota dessa merda desse céu.
Fica aí, todo mundo suado, fedendo, nojento, parecendo um bando de porra junto.
Calor da desgraça.

E não passa uma porra de vento pra aliviar. E a gente é que se foda, todo mundo amarrotado nessa porra desse ônibus. Um bando de desgraça fedorenta, tudo junto, fedendo, suando, reclamando. Inferno.

E fica essa porra desse mar zombando da sua cara. Aí, essa porra toda azul, verde, sei lá, só pra te sacanear. E você indo pra um trabalho fudido, escroto, pra ganhar dois salários mínimos pra meterem uma porrada de merda pra você fazer todo dia. Vida escrota da porra.

E não chove nessa merda. Tem quase um mês que não cai uma porra de gota nessa merda. Nem pra dizer que de madrugada deu um chuvisco, uma aliviada. Porra nenhuma. Vai se fuder, caralho.

E ainda vai esse filha da puta desse motorista dirigindo que nem um escroto. A porra da velha do meu lado quase caiu da cadeira. E esse filho da puta atrás de mim com essa mochila nas costas. Bota essa porra no chão, seu corno. Como se essa porra desse ônibus já não tivesse entupido nessa desgraça. E ainda tem uns filha da puta pra ficar apertando mais. Bando de escroto.

E o outro sacana com essa porra desse rádio ligado. Vai tomar no cu, porra. Desliga essa merda. Não basta estar um calor da desgraça, todo mundo fedendo, apertado, indo pra um trabalho escroto, com um filho da puta dirigindo parecendo que tá comendo a mãe dele, e ainda tem um verme ouvindo rádio. Alto pra caralho. Vai se fuder.

Não aguento mais esse calor. Não é só essa porra dessa sede que dá. Tá com sede, bebe água. É esse abafamento. Porque não pode ser uma porra de um calor seco, não. Tem que ser um calor filha da puta de úmido, abafado, escroto. Nem numa porra de uma sombra essa merda melhora. E fica tudo ensopado de suor, mão, pé, costas, a porra toda. Como é que consegue trabalhar nessa porra desse calor? E ainda tem uns fudidos que têm que trabalhar de terno nesse calor. Vai se fuder. Pior é o filho da puta que manda o fudido trabalhar de terno.

Tem que ser muito filho da puta pra mandar um sacana trabalhar de terno nesse calor. Um sol da desgraça o dia inteiro, e tem corno que bota os sacanas pra correr mundo com esse terno escroto. Como é que aguenta essa porra desse calor nessa desgraça desse terno?

Aí chega na porra da sala, e tem uma desgraça de um ar-condicionado todo velho, barulhento, sujo como a porra, que finge que esfria mas não esfria. E você ainda tem que ficar que nem um sacana fingindo que tá tudo bem, que tá beleza, ficar numa porra de um lugar barulhento, apertado, quente, com uma porra de um ar sujo, com uma luz irritante, que não para de piscar, parecendo um filho da puta resolvendo um monte de merda da vida dos outros que no fundo não vai mudar a porra da vida de ninguém.

Tem que ser muito filho da puta pra ganhar dinheiro empregando gente pra se fuder fazendo coisas que nenhum corno merece, e ainda lucrar pra caralho em cima delas. Tem que ser muito filho da puta.

E ainda tem esse corno com essa porra desse rádio ligado nessa porra desse calor, num aperto da desgraça, num calor do inferno.

Aí chega um escroto e mete uma porra de uma bala num filho da puta desse, e o corno ainda acha ruim. Vai se fuder. E ainda tem o sacana dirigindo parecendo que tá sendo currado por uma manada de elefante. Seu filho da puta. Você tá levando gente, não é pedra não, desgraça.

E se fosse só hoje ainda tudo bem, mas é a mesma porra todo dia. Vai se fuder.

Que calor da porra. Puta que pariu. Que calor insuportável. Não aguento mais essa porra.

Não podia chover? Não podia chover só uma porra de uma hora, pra aliviar esse calor da desgraça? Não podia passar uma porra de um vento pra aliviar essa merda desse calor filho da puta? 

Se bem que essa porra ia ser pior, ia começar a chover e o bando de corno desse ônibus ia fechar as janelas parecendo um bando de puta feito de açúcar. Aí eu ia ter que aguentar a porra do calor, do suor, desse aperto filho da puta, desse sacana fazendo um barulho da porra, do desgraçado dirigindo feito um corno e ainda ia ficar com as porras das janelas todas fechadas. Rebanho de escroto.

Deixa essa porra assim mesmo. Vai todo mundo pra puta que pariu.

sábado, dezembro 29, 2012

A velocidade da gravidade


A velocidade da gravidade
ou
como perguntas inúteis nos fazem avançar

Quando eu era criança, a minha falta de conhecimento sobre as "leis do universo", em conjunto com a quantidade razoável de leitura não-realista (quadrinhos, ficção científica e fantasia) me permitia fazer perguntas... estranhas. Não limitado por conceitos formados ou mundos realistas, eu gostava de criar histórias irreais, fantásticas, mágicas.

Um dia, imaginei um ser multi-poderoso teletransportando um planeta. O planeta, na minha história imaginária (não são todas?) estava em rota de colisão com sua estrela devido a um distúrbio na realidade. Assim, como única maneira de salvar sua terra natal, o ente poderoso teletransportara o planeta para outro local no espaço, não muito distante do original.

Acontece que orbitava o planeta uma estação espacial. E agora, a gravidade que incidia sobre ela era outra.

E a primeira pergunta que eu me fiz, pensando sobre a situação foi: quanto tempo demoraria para a "nova" gravidade do planeta chegar até a estação espacial?

Por mais que eu pensasse no assunto, não cheguei a uma conclusão lógica. Embora na época eu já tivesse alguma familiaridade com a Teoria da Relatividade, e "sabia" que a gravidade pode ser interpretada pela distorção espaço-temporal causada por um corpo, não conseguia chegar a conclusão alguma sobre quão rápido essa distorção se espalharia pelo espaço.

Acabei por desistir do assunto, um pouco frustrado.

Quando o grande oráculo surgiu, nos idos de 2004, eu aproveitei para perguntar coisas que eu sempre quis saber. E lembrei disso.

O que teria acontecido se eu tivesse ido atrás dessa resposta? Não sei, provavelmente variaria a depender do afinco que eu pusesse nessa tarefa. Mas com certeza eu teria estudado mais sobre gravidade, sobre as "ondas gravitacionais". Teria entendido que cientistas importantes também se depararam com o problema. Teria aprendido sobre a matemática desses processos, ou ao menos teria entrado em contato com ela mais cedo. E quem sabe talvez tivesse mesmo seguido os caminhos de pesquisa científica.

Mas eu sempre fui tido como maluco, porque fazia perguntas estranhas e tinha pontos de vista não ordinários. Às vezes eu acabava por acreditar que eu devia ser um pouco maluco. E também por isso, deixava de lado algumas ideias e vontades pra me manter "mais normal".

De qualquer forma, é interessante notar que algumas perguntas muito bobas, ou muito estranhas, nos levam a lugares fantásticos, mesmo que elas não sejam respondidas. Por isso que que eu sempre gostei de filosofia, de física, de matemática.

Ao mesmo tempo é interessante notar que as pessoas não se perguntam sobre as coisas. De modo geral, as pessoas simplesmente vivem, e dão as informações que vão recebendo durante a vida como certas, se é que chegam a pensar sobre isso.

Na minha aula de vólei, quando eu tinha 13 anos, me ensinaram que um abdome trabalhado ajudaria a suspensão do corpo do atleta no ar. "Como", eu perguntei ao professor. Ele não soube me responder. E os outros alunos acharam a minha pergunta estranha, inicialmente, mas depois tiveram a mesma curiosidade.

Eu adoro crianças. Não terei filhos, mas acho esses seres fascinantes, intrigantes e potencialmente fantásticos. Por isso eu adoro as perguntas das crianças. Eu tento estimular que elas tentem se perguntar sobre as coisas. Quando uma criança faz uma pergunta, eu me divirto junto com ela tentando que ela chegue a uma conclusão própria. Nem sempre dá. Mas é muito divertido.

E acima de tudo, eu estimulo as perguntas inúteis. Elas ajudam a estabelecer métodos de extrapolação de raciocínio que não estão presentes em processos mentais de muitos adultos que conheço. E perguntas inúteis tiram um pouco do peso de aprendizado sobre o mundo real e dão ao processo um gosto misto de rebeldia e liberdade. Quem se importa com quem descobriu o Brasil? Eu quero é saber o que aconteceria se eu pulasse num buraco que ligasse dois lados opostos do planeta.

Quanto à minha pergunta: ainda não há uma resposta.

Sobre esse assunto em específico - a velocidade da gravidade - pode-se ler algo nos links abaixo,

1)
http://en.wikipedia.org/wiki/Speed_of_gravity

2)
http://www.astrowatch.net/2012/12/chinese-scientists-find-evidence-for.html

3)
http://www.csa.com/discoveryguides/gravity/overview.php

4)
http://www.csa.com/discoveryguides/gravity/overview.php

5)
http://scienceblogs.com/startswithabang/2010/08/25/what-is-the-speed-of-gravity/

6)
http://www.metaresearch.org/cosmology/speed_of_gravity.asp

sexta-feira, junho 15, 2012

O que é ver?


- Você viu aquilo?
- Vi. O cara colocou a mão na bola de propósito!
- Não, rapaz, a bola bateu na mão dele! Ele nem percebeu que ela estava vindo!

O olho funciona de forma interessante. Algumas faixas de onda eletromagnética são filtradas, convergidas em um aparato que é sensibilizado por elas. Este aparato, também conhecido como retina, transmite a informação recebida, através do nervo ótico, até o cérebro. No cérebro, a informação é decodificada, e nós vemos. Parece "simples".

Mas não é nada simples.

Primeiro, porque o tipo de energia eletromagnética que somos capazes de perceber é, comparativamente com as frequências existentes, muito restrito.

Nosso aparelho de recepção e agrupamento de espectros eletromagnéticos (o olho humano) só consegue perceber, convergir e codificar a energia eletromagnética que possui comprimento de onda entre aproximadamente 400 e 700 nm (nanômetros, ou seja, 0,7 X 10 elevado a menos 6, ou seja, a décima milionésima parte de um metro, ou seja, algo muito muito muito pequeno).

Se considerarmos que existe energia eletromagnética desde a escala do Femtômetro (10 elevado a menos 15 metros, ou 0,000000000000001 metros) até a escala do Megâmetro (10 elevado a 6 metros, ou 1.000.000 metros), então percebemos que, no fim das contas, nossa capacidade de ver as coisas é muito pequena.

Diversos animais conseguem ver mais do que nós. E mesmo as plantas conseguem perceber espectros que nós não percebemos.

Ver não é só perceber a luz. Ninguém diz que o girassol vê a luz do sol. Perceber a luz é o primeiro passo, mas ver envolve também a capacidade de formar imagens, de dar forma ao que se percebe. A maioria dos animais é capaz de ver. Diferente de nós, melhor ou pior do que nós, muitos animais veem (sem acento, de acordo com as novas regras da língua portuguesa).

Acontece que ver não é algo objetivo, mas interpretativo. Há quem diga que a chegada da informação ao cérebro é só a primeira etapa do processo de ver. Para vermos, é preciso interpretação do que vemos.

Essa interpretação pode ser complexa. O diálogo que iniciou o texto é um exemplo bobo, mas eficaz, de como ver não é uma coisa objetiva. Quem já teve oportunidade de se deparar com ilusões de ótica também  já deve ter percebido que o cérebro, independente de nossa vontade, influi muito em como vamos interpretar o que vemos. Uma cor parece diferente a depender do contexto. Uma forma pode se transformar em outra a depender do enfoque. Uma ação pode ser entendida de maneiras diferentes a depender de como seja analisada, vista.

Nós costumamos pensar em como algo que percebemos é, obviamente, aquilo que pensamos que é, ou representa aquilo que pensamos que representa. Temos grande dificuldade de extrapolar o nosso ser e (eu sei que é difícil) tentar "ver" as situações de outra maneira. Meu irmão sempre brincava, quando criança (e eu concordo com ele) dizendo que "o verde que eu vejo não é o mesmo que você vê". E ele está certo - sob um ponto de vista.

Imaginemos que duas pessoas estão, no mesmo momento, a olhar para o mesmo objeto. Imaginemos que este objeto é uma cadeira verde, numa exposição de arte. As duas pessoas se encontram muito próximas, com ângulo de visão muito parecido. A incidência das ondas eletromagnéticas refletidas pela cadeira nos olhos das duas pessoas é praticamente o mesmo. Então, elas estão vendo a mesma cadeira, com o mesmo verde, certo?

Não necessariamente. Primeiro, que suas células são diferentes. Mesmo que nenhuma das duas tenha "defeitos" na percepção da luz (por exemplo, nenhuma é daltônica), suas células são diferentes. Só isso já cria a POSSIBILIDADE de que vejam a mesma cor de forma ligeiramente diferente. No mundo prático, essa diferença pode, ao fim das contas, não fazer diferença. No mundo da discussão filosófica, contudo, você não pode afirmar que elas estão vendo, seguramente, a mesma cor.

Segundo, que cada pessoa traz consigo uma bagagem cultural diferente. São pessoas diferentes, que tiveram educações diferentes, que viveram coisas diferentes, e que interpretam coisas de formas diferentes. Portanto, necessariamente, terão relações diferentes com aquela cadeira verde. Não só porque o verde que uma vê não é o mesmo que a outra vê, mas também porque para uma, cadeiras representam uma coisa e para a outra, outra coisa. Cada uma possui sua própria bagagem conceitual, emocional e prática com cadeiras e com a cor verde. Uma das pessoas pode achar que verde não é uma cor apropriada para cadeiras, enquanto outra pode pensar que uma cadeira verde é uma forma de representar o momento de descanso da natureza. Elocubrações à parte, as experiências, por mais próximas que sejam, são únicas e intransferíveis.

Contudo, pode-se trocar informações sobre essas experiências. Podemos conversar, discutir, argumentar sobre o modo que cada um percebe, vê e pensa aquela cadeira verde. Podemos também tentar entender o que o outro pensa sobre o assunto, como ele viu a cadeira, o que aquilo tudo representa para ele, e tentar mostrar para ele o que aquilo representa para nós. O outro pode discordar, concordar, se divertir, se irritar, a depender de como façamos isso. E vice-versa.

Aí está, para mim, um dos grandes problemas do mundo. Não é um problema novo. Na minha opinião, sob minha perspectiva, na minha ótica, o mundo tem problema de ver pelos olhos dos outros. E não é apenas uma dificuldade conceitual, de entender o que o outro vê, e como ele vê. É um problema de vontade.

Não vejo as pessoas dispostas a, antes de fazer julgamentos sobre ações ou opiniões, tentar entender o ponto de vista do outro. Se alguém te fecha no trânsito, necessariamente é um filho da puta. Se alguém pisa no seu pé, ou é um estúpido que fez isso de propósito, ou é um idiota que não olha por onde anda. Se aquela pessoa grita, a primeira reação é gritar de volta, em vez de tentar entender o que (possivelmente) está afligindo aquela pessoa para que ela tenha tido que gritar conosco.

Se somos necessariamente diferentes, porque não conceber que o outro interpreta as coisas diferentemente de nós e, antes de agir, pensar sobre os motivos que levaram a pessoa X ou Y a agir como agiu? Principalmente quando estamos dispostos a agir com violência ou de alguma forma que vá ferir - não apenas fisicamente - o outro.

Falta paciência, educação, vontade, a todos nós. Acho que precisamos rever isso.

Claro, isso é o meu ponto de vista. Fiquem à vontade para ampliar a minha capacidade de perceber diferentes frequências de ondas eletromagnéticas que extrapolem a física.

sábado, fevereiro 18, 2012

Afã! Farra!


Farra é uma palavra engraçada. Eu sempre penso nas pessoas da geração anterior à minha numa festa semi-hippie, dançando, rindo, com os filhos morrendo de vergonha de ver seus pais se mexendo de forma um tanto medonha - para seus padrões adolescentes.

Nunca associei farra a alguma coisa que não fosse "pura", leve, mas muito divertida e extensa. Quando penso em farra, penso em dança, suor, risadas, nunca em drogas pesadas, gente vomitando, nem nada de ruim.

Nesses dias vi uma mini fanfarra, ou como descobri, um chupa-catarro, descendo a rua na maior farra. Algumas pessoas acompanhando, todas extremamente felizes (mesmo os jovens envergonhados, que não queriam admitir ), debaixo do típico sol do verão soteropolitano, dançando, cantando.

.

Um amigo tem o incrível poder de não-entender, ou entender errado, tudo o que ouve. E uma das frases que ele retrabalhou internamente no seu cérebro resultou na seguinte: "A farra dos fabricantes de sopa". 

Eu sempre me divirto tentando imaginar como seria uma farra dos fabricantes de sopa. 

Várias pessoas com seus chapéus de mestre-cuca, dançando, cantando, numa cozinha cheia de massas, legumes e carnes. Alguns cortando os ingredientes, outros acendendo o fogão, alguns lavando panelas, uns jogando as letrinhas pra cima, como confete, outros batucando com os utensílios, outras ainda tomando sopa. E dançando. Todas muito felizes.

E seus filhos adolescentes, com seus chapéus de mestre-cuca júnior, morrendo de vergonha, e se divertindo secretamente por meio das reclamações, risos, e passos de dança encabulados.

quarta-feira, janeiro 25, 2012

O velho Urso de Pelúcia.

Cansei, pensou o velho urso de pelúcia. Cansei de tentar ser feliz, de seguir os meus sonhos. Cansei de ir atrás de um novo dono a cada 4, 5 anos, de tentar agrada-lo, de tentar encontrar alguém que também me agrade. Cansei de correr atrás de uma coisa que nunca será duradoura, e por mais que enquanto esteja, seja completa, termina.

Cansei.

E então o velho urso de pelúcia fez uma fogueira bem grande e pulou dentro dela.

Cinzas jogadas em um caminhão.

sábado, setembro 24, 2011

Kláudio


A vida de Kláudio poderia ter sido boa. E não estou nem considerando o fato de que quase todos o chamam de cráudio, ou de que seu nome é escrito com K, o que normalmente causa, se não confusão, um mínimo de atraso em qualquer procedimento que ele tenha que dizer seu nome para algum atendente de repartição pública - o que aliás é muito comum na vida de Kláudio, ter que fornecer seus dados para atendentes, sejam de repartições públicas ou privadas. Ou mesmo pelas piadas incessantes de colegas de escolas e, posteriormente, colegas de trabalho, pela excentricidade da escrita do seu nome, num país em que se tem liberdade para chamar-se como bem se entenda - ou como bem seus pais entendam.

Também não é porque Kláudio tem um emprego meia boca, desinteressante, que não oferece nem perspectiva de melhora, nem aprendizado, nem ao menos colegas bonitas para se relacionar amorosamente, de forma ocasional.

A vida dele é uma merda porque ele escolheu virar à direita em vez de virar à esquerda no dia 02 de agosto de 1997.

Alguém provavelmente vai dizer "que absurdo", afinal de contas não é possível que a vida de alguém se diferencie tanto só porque um dia ele resolveu ir pra um lado em vez de ir para o outro lado. Mas é por isso mesmo.

No dia 02 de agosto de 1997 - eu não me lembro, não estava lá, mas sei muito bem - Kláudio fez o que fazia normalmente pela manhã, que era sair para o trabalho. Na época ele trabalhava numa loja em frente ao emprego atual. Ele estava atrasado, e em vez de ir andando, o que fazia todos os dias, ele resolveu pegar um ônibus. Na verdade ele não estava atrasado, se formos rigorosos com o termo, porque Kláudio sempre chegava entre 10 e 15 minutos antes da loja abrir, sem real necessidade. Por isso que, se ele fosse andando, não chegaria atrasado, chegaria no momento de abertura da loja.

Mas ele decidiu pegar o ônibus, então, ao sair de casa, ele deveria virar à direita no cruzamento de sua rua com a Tenente Pires. Seu caminho habitual seria seguir a Tenente Pires pela contramão, atravessá-la, descer uma escada, atravessar a Avenida Tuiuiú, subir outra escada, passar por duas vielas, uma travessa, entrar na Alameda Gil Vicente, andar aproximadamente 300 metros, e finalmente chegar ao trabalho, percursos que ele fazia em pouco menos de meia hora.

Virando à direita, ele segue o fluxo de carros da Tenente Pires até o ponto, pega qualquer ônibus, segue a Tenente Pires até a Albuquerque Figueroa, onde Kláudio desce já próximo à Gil Vicente, para andar cerca de 150 metros. Ele até preferiria fazer o trajeto de ônibus todos os dias, pela comodidade, se existisse comodidade, já que o trânsito é sempre cheio, e nunca tem lugar vago pra sentar. Sem contar, claro, o custo. Caminhando ele faz algum exercício, economiza dinheiro, e acaba gastando quase o mesmo tempo de percurso. Quase. Para ele, no dia 02 de agosto, os 10 minutos a menos de gasto de tempo para ir ao trabalho foram motivo suficiente para decidir pegar o ônibus em vez de caminhar.

Talvez o motivo para ter virado à direita tenha sido realmente não se atrasar, mas como já se sabe, se ele fosse andando e chegasse 10 ou até mesmo 15 minutos depois do habitual, ninguém notaria, quem dirá reclamaria. Mesmo que ele chegasse 30 minutos depois, as chances são de que ninguém sequer percebesse que ele ainda não tinha chegado. Ele sabia disso perfeitamente. Por isso, às vezes, pensando sobre esse caso, eu me pergunto qual foi o motivo real, se é que houve outro, para que Kláudio acabasse por virar à direita em vez da costumeira esquerda.

O que importa é que, por causa disso, a vida dele acabou onde acabará, que é onde acabam as vidas sem graça e emoção, ou seja, uma aposentadoria chata, com uma mulher chata, e filhos chatos, pouco dinheiro, pouca coisa pra se orgulhar, menos ainda pra se arrepender - que ele saiba - com um enterro simples, num cemitério de quinta, numa segunda, com 7 pessoas, e poucas recordações.

Se ele tivesse virado à esquerda, como sempre, ou como quase sempre, ele poderia, finalmente, encontrar com Paulo, aquele amigo que estava lhe devendo dinheiro - não era muito, mas dinheiro é sempre bem vindo - e que, semanas depois, foi embora pra Manaus e nunca mais se viram, se falaram ou mesmo pensaram um no outro, e ele poderia fazer aquele curso de informática que ele tanto queria, mas nunca conseguia. Kláudio poderia, também, encontrar com Girlane, aquela ex-colega do último ano, que tinha uma quedinha por ele, mas que tinham se desencontrado depois que ele largou o colégio e se mudou pra trabalhar como entregador na loja de um conhecido de seu pai. Inevitavelmente, Kláudio iria passar na frente da casa de Dona Tereza, tia de Bito, que ia dizer que estavam procurando alguém pra trabalhar numa loja nova que ia abrir ali perto, e que ia indicar ele. Ele poderia passar, como quase sempre fazia, na padaria Pão Preto, pra comprar o lanche de todo dia, porque Kláudio não toma café da manhã, e prefere comer alguma coisa por volta das 10h, pra poder ficar atendendo no horário de almoço, enquanto o chefe come, e lá encontraria Zé Negão, que tinha acabado de chegar de viagem e passava ali por acaso, e ia convida-lo pra pegar o baba de quarta de noite. E finalmente, porque chegaria um pouco depois do horário habitual, encontraria Quinho, seu irmão, logo na esquina, e iria ter uma chance de pedir desculpas e voltar a falar com ele e com o resto da família.

Mas Kláudio virou à direita. Não pegou o dinheiro que estavam devendo, ficando sem sobra pra fazer aquele curso de computação, nem começou o namoro com Girlane, e nunca mais conheceu alguma mulher minimamente interessante que se interessasse por ele, nem pegou o emprego com Dona Tereza, na mesma loja que hoje ele trabalha, mas porque pegaria o emprego logo de começo, já estaria num cargo  de menor responsabilidade e maior remuneração, ainda mais se conseguisse fazer o curso de informática que queria com o dinheiro que tinha emprestado, nem encontrou Zé Negão, e nunca mais teve ânimo ou convite pra fazer nenhum esporte e acabou virando um sedentário preguiçoso, e nem encontrou Quinho, e nunca mais falou com ninguém de sua família, e morreu sem ter tido um casamento feliz, um emprego legal, sem conhecer os sobrinhos, sem saber de notícias da família, sem perspectiva, sem sonhos, e sem ser lembrado por ninguém.

segunda-feira, junho 13, 2011

sábado, dezembro 25, 2010

segunda-feira, novembro 23, 2009

Cores para daltônicos

Eu discordo de alguns símbolos utilizados, mas a idéia é simplesmente geinal:

http://coloradd.net/codigo.htm

Desconfianças

Eu sou desconfiado de tudo. Apesar de seguir a linha ideológica do ceticismo, minha desconfiança vem de não confiar nas pessoas.

Quando minha família tinha carro, e tínhamos que consertá-lo, eu nunca confiava nos mecânicos. Não é de hoje que eu não confio em médicos, apesar de não ter medo deles, ou evitar consultá-los. Também não confio em vendedores, seja do que for. Quando eu fui atendente em loja (era indicador de filmes na GPW), tentava ser o mais honesto possível com o cliente, mas isos é muito raro em vendedores, ainda mais quando ganham por comissão.

Eu tenho outro problema que é o seguinte: apesar de não confiar nos profissionais (?) responsáveis por me oferecer o serviço do qual necessito, eu simplesmente sei pouco ou nada de muito do que eu preciso. Eu entendo muito pouco do funcionamento de um carro para diagnosticar qualquer problema maior do que um fusível queimado ou falta de água. E sempre acho que os profissionais estão querendo tirar vantagem de minha pessoa.

Assim, é natural para a minha pessoa não confiar em restaurantes.

Muitas vezes, tive quase (quase) certeza de que o que eu estava comendo não era o que diziam que eu estava comendo. Em alguns casos, é fácil identificar (frango versus carne de boi), mas em outros, não é tão simples (ensopado de bacalhau versus ensopado de peixe). Como saber se o que você está comendo é um budião ou um robalo? É difícil.

Isso acontece também com água mineral. Eu sempre tenho desconfiança de que a água mineral que estou comprando não é realmente água mineral.

Assim, fiquei um pouco puto graças a esta reportagem, que fez o teste, em diversos restaurantes de comida japonesa nos EUA, e descobriu que o atum que estava sendo vendido não era atum.

Um dia meu pai perguntou a um português, dono do restaurante, qual o peixe que era servido no prato "peixe frito". A resposta: Como eu posso saber? Compro mais de 20 quilos de peixe por dia!

Eu odeio ser enganado ou iludido (um dos motivos principais para meu ateísmo, empatando com a improbabilidade estatística da não existência de Deus, e a incapacidade de se explicar o porque de o mundo ser uma merda quando possui um Deus tão legal no controle de tudo). Sempre que eu ACHO que POSSO estar sendo iludido, eu fico muito puto. Eu já ficava puto nos restaurantes antes. Agora então...

Ah, sem falar da carne de cachorro dos restaurantes chineses, que continuam aparecendo por aí.

quarta-feira, novembro 11, 2009

Lacanofobia

Ou Lachanofobia, ou Lachanophobia, é o medo de vegetais.

O oposto deveria se chamar lacanofilia, mas não achei essa definição em lugar algum.

sexta-feira, novembro 06, 2009

Queratina

Unha e Cabelo são quase a mesma coisa.

segunda-feira, outubro 12, 2009

Inglorious Basterds

I´ve just seen Inglorious Basterds. It´s a cinema lecture. Not really a top ten film, but it´s very well made. Many well-put cliches, and many, many different accents. Amazing dialogue work. Great actors. A little boring in some parts, though.

But surely a must-see.

segunda-feira, outubro 05, 2009

Olimpíadas no Rio

Pois é. Eu vi muita gente ficando muito feliz por causa da nomeação do Rio de Janeiro para sede das olimpíadas de 2016.

Eu fico muito preocupado. Nos jogos Panamericanos já tivemos muitos problemas com as construções mal estruturadas, com os excessos de gastos, com as promessas que não foram cumpridas, e finalmente com a lavagem de dinheiro.

Por que nas olimpíadas seria diferente? Sendo que no caso dos jogos olímpicos, o gasto é MUITO maior do que o gasto dos jogos Panamericanos. E, pra piorar, vai ser dois anos depois que o país sediará uma Copa do Mundo (mais dinheiro lavado, mais obras inúteis, etc, etc).

Se o Brasil tem esse dinheiro todo pra investir na imagem do país - porque é isso que uma olimpíada significa, imagem, muito mais do que infra-estrutura - poderia muito bem investir esse dinheiro para melhorar o nível social daqui. Ou não?

Eu realmente não acredito que os J.O. possam deixar um legado de estímulo ao esporte. Seria muito bom se conseguisse. Aliás, a grande maioria das cidades que sediaram J.O. tiveram problemas com suas obras - o que fazer com elas? Como administrá-las?

Já houve a proposta cretina do governo da Bahia, que o novo estádio da Fonte Nova terá que ser, obrigatoriamente, utilizado para TODOS os jogos que envolvam o Bahia OU o Vitória. Como assim? O Vitória constrói seu próprio estádio, com sua administração, e vai ser obrigado a usar outro estádio, alugado? Por que não pensaram nisso quando reformaram o Pituaçu? Para que 3 estádios de futebol em Salvador?

Se isso acontece aqui, faltando ainda mais de 4 anos para a Copa que o Brasil sediará, imagine o que vai acontecer por causa das olimpíadas.

Sou contra. Mas sou voto vencido.

quinta-feira, setembro 24, 2009

SIM 2009

Este ano esotu trabalhando na Semana Iguatemi de Moda 2009. Estou co-dirigindo com Pedro Guimarães. Hoje foi a abertura do evento. Muita gente, muita estrutura, mas mas do mesmo querendo ser diferente.

MUITOS(as) modelos. Muita gente. Mais de 2 milhões de unidades monetárias de dinheiro brasileiro envolvidos nesse evento.

Forte do Santo Antônio além do Carmo (Forte da Capoeira).

Trabalho até domingo. Pelo menos vi umas gatinhas de calcinha e sutiã.