sexta-feira, março 27, 2026

A fisgada da música

  

Um dia minha mãe chegou com um disco (CD) de Caetano em casa. Eu nunca entendi porque ela e meu pai – e os “velhos” em geral – gostavam de Caetano. Quer dizer, entendia – juventude, falsa rebeldia, contracultura e, logicamente, posicionamento perante a ditadura. Mas acho as suas músicas chatas, muitas são ruins mesmo. Vai entender.

Ela ouviu o disco. Um dia de semana de 1993. Eu estudava à tarde, então tive muito tempo para sofrer enquanto Caetano emanava pela casa de manhã. 

 

Minha mãe diz que eu sempre fui muito reativo a música, desde bebê. Certas músicas me faziam chorar, outras me faziam rir, outras calar. Eu sei que se estiver tocando música, eu não consigo fazer mais nada, porque toda minha atenção é capturada por ela. Eu não consigo estudar – confirmei isso ao tirar zero num mini-teste de física, minha segunda matéria favorita, para o qual estudei ouvindo música –, não consigo ler, não consigo escrever. É bastante comum uma música tocar e eu chorar, simplesmente, às vezes sem nem perceber. Tenho um grande amigo que morria de medo quando estava perto de mim e tocava “Na carreira”, de Edu Lobo e Chico Buarque. Acho que só consegui canta-la sem chorar recentemente, idem para “Domingo no parque” de Gil.

 

Estava eu lá vestido, almoçado, esperando para ser levado para a escola, e o disco tocando, até que tocou uma música e por alguns instantes, eu nem lembrava quem eu era. A música acabou, eu levantei e coloquei para tocar de novo. E de novo. E de novo. Eu não entendia o que estava acontecendo, mas sinceramente não estava muito preocupado. Estava apenas ali, ouvindo aquilo repetidamente, quase que em transe.

 

Eu nunca fui muito de faltar aula. Tive meus momentos de filar educação física, mas que duraram pouco. Faltar aula já pronto, almoçado, vestido, e com carona? Difícil.

 

Chegou a hora de sair para a escola. “Vamos, filho.” A resposta saiu de minha boca sem pensar, sem pestanejar. “Hoje eu não vou pra escola.”

 

Na minha memória, minha mãe olhou pra mim, deu tchau e foi embora. Eu nem acreditei, porque ela, apesar de muito compreensiva, não era a favor de faltar aula à toa. Era como se ela tivesse percebido algo que eu mesmo não tinha percebido.

 

Eu passei a tarde inteira ouvindo a mesma música. A música, no repeat, tocou durante umas 2, talvez 3 horas, incessante, e eu ali, sentado no sofá, ouvindo aquela coisa tão impactante, profunda e diferente. Chorei várias vezes naquela tarde, de leve, as lágrimas caindo sozinhas, igual estão agora, enquanto o mundo girava devagar completamente alheio a mim. E eu, a ele.

 

Eu já tinha lido algo de Haroldo de Campos, mas poesia, de forma geral, não é pra mim. É muito pessoal e bem pouco transferível. Aquela, por algum motivo que eu nunca entendi – e eu tentei bastante – me agarrou, hipnotizou, prendeu, apreendeu e por fim, me trouxe de volta, a mesma pessoa, completamente diferente.

 

Foi com muita tristeza, e imensa, irradiante e duradoura alegria, que eu finalmente gostei de uma música “feita por Caetano Veloso”. Que eu nem sei se dá pra dizer que foi ele que fez, já que o texto é de um, o arranjo, de outro, e ele não é o primeiro nem o segundo.

 

Às vezes eu coloco a música pra ouvir no escuro, no fone de ouvido, que nem hoje, e deixo esse universo místico, mágico, maluco, em movimento (que é a música) me levar praquele lugar que um dia, numa manha e tarde de 1993, ainda estou escutando Circuladô de fulô, para sempre.

 

 

segunda-feira, julho 24, 2017

Número 61

Eu vi o número 61. Digo, parei e olhei o número 61. Foi como se pela primeira vez eu o percebesse além do conceito de número, como a personificação do número. Me senti aquelas pessoas que moram no mesmo prédio há anos mas não olham para os que trabalham lá, e um dia, como que por acaso, lembram que aquele ser também é gente e o veem pela primeira vez. Ou seja, me senti mal pelo desrespeito contínuo que tive pelo número 61 todos esses anos.

A fonte em questão, não sei seu nome, tinha o arco alto do número 6 bastante curvado. O 1 era ordinário - não me lembro de perceber essas diferenças entre os números um, existem, mas eu ignoro, inconscientemente. Não no sete, não no cinco, não no seis ou nove. Era um seis com seu arco superior razoavelmente curvado, um seis clássico, um seis que me lembrava tempos antigos e sérios, um seis quase filosófico.

E olhei para este seis solene seguido do um ordinário e fiquei confuso, muito confuso, com aquele número 19 que tinha um aspecto tão diferente. Algo estava errado com o 19. O 1 estava no lado erado, o 9 de cabeça para baixo. Eu percebia isso não de forma muito consciente, era apenas confuso, eu sabia que algo ali estava errado.

O que estava errado era meu comportamento para com o número 61 durante toda a minha vida. Um número pouco notável, pouco dito, sem piadas próprias, sem grandezas naturais que lhe fossem características, uma idade irrelevante. Era o 61, mas não para mim, para mim ainda era o 19. Tinha uma coisa muito estranha com aquele 19. E então, percebendo a minha estranheza, resolvi olhar para aquele número de novo. Aquele trabalhador incansável que eu ignorei por todo esse tempo, lhe dando o status de coisa, não o respeito e individualidade que ele merecia desde antes de eu nascer.

Olhei para ele e o percebi. Pela primeira vez eu vi, de verdade, o número 61. Foi como quando você percebe que azul se chama azul, que tem aquele som muito especifico, e não azil ou azol, e tem aquelas exatas letras numa sequência exata com sua forma exata e seu resultado interpretativo não tão exato assim. Azul. Aquele momento que você repete e repete e repete a palavra, como que para testa-la, aquela palavra tão comum que de repente se torna uma estranha e você esquece mesmo como dizê-la, e se repetir bastante o som se perde e você a perde e ela deixa de fazer sentido completamente e vira um mantra ecoando no vazio sem significado próprio, sem voz, representação ou corpo. O 61 era hoje meu azul redescoberto.

Olhei para ele até que os algarismos deixassem de fazer sentido, até que eu esquecesse que ele é muito mais do que um desenho numa superfície, que ele não esta solto, que ele anda acompanhado do conceito de si próprio. Me perdi no 61, naquele até então estranho 19, e perdido nele fiquei até que de repente, pela primeira vez, eu o vi. Estava ali diante de mim o 61 em pessoa, seu avatar, seu proxy, seu múltiplo, sua representação, aqueles pequenos e redondos traços que são apenas a porta de entrada para uma dimensão própria e infinita que é a dimensão de todo número.

Eu olhei para ele com vergonha, como se pedisse desculpas por tê-lo ignorado por tanto e tanto tempo. Ele nunca me respondeu, não pareceu ficar com raiva, com rancor, com ódio, ou nenhum outro sentimento. Ele era apenas o 61, mas também o poderoso 61, que não precisa de minha aprovação, minha devoção ou mesmo meu reconhecimento. O 61, apenas. Foi bom vê-lo pela primeira vez. E agora, para mim, ele tem uma forca que eu desconhecia e nunca esperaria dele.

segunda-feira, dezembro 19, 2016

O casamento de uma vida

Ela descobriu que tinha câncer.

Já sabia que tinha algo errado. Já sabia. Mas não que era tão errado.

Primeiro ela ficou parada, muda. O médico olhava para ela, frio. Por dentro ele estava triste. Muito triste. Mas por fora tentava ficar frio porque ele não sabia lidar com esse tipo de situação.

Entendeu? Entendi. Eles conversaram um pouco mais. Alguns tipos de câncer se curam. Não era esse tipo de câncer.

Ela foi pra casa andando, um caminho longo. Ligou o fone bluetooth e caminhou por mais de uma hora até em casa. Não tinha ninguém, e ela pode sentar e chorar, deitar e chorar, tomar banho e chorar, e chorar, e chorar até apagar.

Ela acordou chorando, no meio da noite, e continuou chorando, e voltou a dormir, e voltou a acordar.

Ela estava muito triste. Porque iria morrer, claro, ela não queria morrer, mas o que a deixava mais triste é que ela iria morrer sem casar. Ela não aceitava que fosse morrer sem casar. Era seu sonho. Ela nunca quis tanto outra coisa na vida. Ela já tinha encontrado o namorado perfeito e pra ela era uma questão de tempo. Ela achava, ao menos.

Sua família ficou arrasada. Destruída. Sua mãe não parava de chorar, seu pai não parava de bater nas paredes, seu irmão mais novo não conseguia olhar nos olhos dela. Todos estavam culpados, tristes, confusos, perdidos. Todos foram ao médico com ela, todos custaram a aceitar, e teriam custado mais se ela não começasse a piorar tão rapidamente.

Seu namorado também estava muito triste. Claro. Quem não estaria, no seu lugar? Mas ele estava triste porque ela iria morrer, não porque ele iria perder a namorada. Ele gostava dela, mas era um namoro... qualquer. Ele não pretendia casar com ela. Ele não pretendia ter filhos com ela. Ele sabia que em um ano ou dois ele iria embora dali, estudar fora, e seria o fim do namoro. Talvez eles ficassem amigos, talvez não, isso era quase indiferente. Era bom agora namorar com ela, e era bom saber que não iria namorar com ela pra sempre.

Duas semanas depois do diagnóstico ela só falava do casamento. De como iria morrer sem casar, de como era triste morrer sem casar, de como sua vida não teria valido a pena se ela morresse sem realizar seu único e maior sonho.

Sua família não era pobre, mas não tinha dinheiro sobrando. O que os pais ganhavam, usavam para sustentar a casa. O que os filhos ganhavam, nos seus sub-empregos, eles usavam para se divertir e pra tentar juntar algo para a faculdade. Mas juntar dinheiro não era o forte de nenhum deles.

Seu namorado também não era pobre, mas também não era rico. Não tinha família, até que ganhava relativamente bem, mas tinha que se sustentar e juntar dinheiro para a própria faculdade.

Assim que, somando tudo isso, casar seria um negócio muito complicado. Porque não bastava pra ela um casamento privado, um casamento coletivo numa igreja, um casamento no fórum. Ela queria festa. Ela precisava da festa. O sonho dela era um casamento de verdade. Um casamento com convidados, com festa, com música, com um vestido lindo, com um noivo lindo, com um padre, com uma banda, com comida, amigos, noite adentro, com ornamentos, com tudo o que ela tinha direito.

Sua família não tinha a menor condição de bancar isso. Não assim, sem se preparar, sem juntar dinheiro com os parentes. Seu namorado também não. Mas ela só falava nisso, todo o tempo, e chorava, e chorava, porque iria morrer logo, e iria morrer sem realizar seu sonho. E como seria horrível morrer sem realizar seu sonho. E como o tempo dela estava acabando.

A família dela pegou alguns empréstimos. Vendeu os carros. Mudou rotinas. Não seria suficiente. Foram conversar com o namorado, que não queria casar. Pra que ele iria casar? Ela iria morrer, ele continuaria ali, sem ela. Ele com certeza iria casar com outra pessoa, teria filho com outra pessoa, para que ele iria casar com ela? Qual o sentido disso? Mas a pressão foi muito forte, ele não tinha como negar o pedido de alguém prestes a morrer, por mais que isso fosse prejudicar sua vida. Afinal, é o sonho da vida dela. Que está prestes a acabar.

Realmente foi um casamento muito bonito. Depois de se endividar bastante e aceitar, o namorado entrou na onda da festa. E os pais. E o irmão, e os amigos, e os parentes, e o padre, e a cidade. E ela foi notícia local, depois no estado, depois no país, e depois no mundo. E a festa durou dois dias, e ela estava linda com um vestido comprado numa loja chique, e teve excelentes comidas, e as pessoas iam pra casa, descansavam e voltavam, e teve banda, e teve DJ, e ao final eles tiveram uma excelente lua-de-mel num hotel na cidade vizinha. Foi melhor do que ela poderia esperar.

E uma semana depois ela morreu, no hospital, vomitando sangue, com a família chorando, com dor, com tristeza, com raiva, com desespero, com tudo o que ninguém precisa nem se prepara.

E a família nunca mais se recuperou financeiramente, e o irmão dela nunca pode ir pra uma faculdade, e seus pais passaram o resto da vida trabalhando nos fins de semana. E seu namorado vendeu a casa, vendeu o carro, mudou para um apartamento com amigos e levou duas décadas para se recuperar financeiramente.

Mas ela realizou o sonho de sua vida, mesmo que não pudesse aproveitar depois. Não é isso o que importa?

domingo, agosto 16, 2015

No restaurante


Ela estava atrasada. De propósito.
O cliente sempre a deixava esperando.
Pagava bem, tinha um caso relativamente fácil.
Mas abusava.
Ela decidiu não correr.
De longe podia saber onde ele estava.
Ele atraía a atenção das garçonetes.
As gorjetas ajudavam.
Mas ele era muito bonito.
Sorriso bonito, rosto bonito.
E ele também tinha um "quê" diferente.
Um ar, um sorriso diferente.
Ela se dirige à mesa dele.
Já sorrindo - ele sempre a recebe com uma cantada boba, mas bonitinha.
Mas dessa vez ele está acompanhado.
Ela para, um pouco assustada, um pouco contrariada.
Se sentiu um pouco traída.
"Que besteira, nós não temos nada".
Respirou e seguiu.
Ele a viu, sorriu e levantou, enquanto fazia o pedido à garçonete que não tirava os olhos dele.
Olá, disse, estendendo a mão, com um grande sorriso no rosto.
Ela ficou um pouco envergonhada, olhava de soslaio para a mulher à mesa, mas estendeu a mão, sem falar nada.
Ele puxa uma cadeira. Sente-se, por favor, bem ao seu lado.
Ela senta.
Esta é minha esposa, Júlia.
Como vai.
Prazer.
Espero que a presença dela não atrapalhe a nossa reunião.
Não, não, de forma alguma, ela diz, enquanto pensa, com um pouco de raiva: ele é casado!
Enfim.
Negócios.
Ela começa a lhe explicar o rumo que o caso deve tomar.
Ele chega mais próximo a ela. A esposa nem pisca.
Ele tem um perfume leve, muito gostoso, que só é possível sentir bem de perto.
Enquanto discutem o caso ele fica sério.
Ela acha bonito.
Ela gosta dos olhos dele seguindo as linhas dos papéis, enquanto a testa franze.
Ele pergunta algumas coisas, e sorri com as respostas.
Eles estão bem próximos, as pernas se tocam.
Até que a garçonete traz as entradas.
Pedi pensando em você também.
Eles guardam os papeis por alguns instantes. Vão se servir, suas mãos se tocam, levemente. Ela sente algo, ele parece não perceber.
A esposa dele está ocupada num telefonema interminável.
Ele oferece um petisco à esposa, que recusa.
Ele ri, e oferece a ela.
Ela acena, mas toma um susto, porque ele levou o petisco à sua boca.
Ela para, olha para a esposa dele, ao lado, alheia a tudo. Ele sorri, e insiste, com o olhar.
Ela aceita.
Seus lábios, levemente, tocam as pontas de seus dedos.
Ele sorri, satisfeito.
Comem um pouco. Ele a serve uma taça de vinho.
Não falam nada. Ele olha para o vazio, e de vez em quando olha para ela, bem nos olhos.
Ela fica um pouco intimidada.
Mas gosta.
Ela sorri, tímida.
Bebem.
Mais um pedaço de algo.
Ela fica com o canto da boca sujo.
Ele se apressa em limpar.
Ela gela.
Olha para o lado.
A esposa não está mais lá.
Ela procura Júlia com o olhar, e a encontra fora do restaurante, falando ao telefone.
A mão dele, agora em seu queixo, a traz de volta para a mesa.
Eles se olham profundamente por quase um minuto. A mão dele deixa seu rosto, desce para sua mão.
Ela treme, um pouco, nervosa. Não sabe o que fazer. E se a esposa voltar? Ela não quer nada com homens casados.
As mãos dele são um pouco pesadas e fortes, mas são macias.
Ele acaricia sua mão, enquanto a olha.
Júlia está voltando para a mesa. Ele sorri, aponta para a esposa com o queixo, e se afasta um pouco.
Ela respira, aliviada.
Uma garçonete se aproxima, com o cardápio. Ele faz pedidos para todos.
A esposa termina o telefonema, come algo. Eles dois se afastam um pouco, mas a mão dele continua sobre os joelhos dela.
Ela está incomodada.
É bom, mas é estranho, e tenso.
A mulher dele está ali, do outro lado da mesa.
Ele fala com a mulher sobre um evento que eles precisam ir na semana seguinte, enquanto inicia um carinho nos joelhos dela.
Lentamente.
Ela segura sua mão, mas ele não para.
É mais forte.
E ela não tem certeza se quer que ele pare.
Mais um vinho. Mais uma taça.
As mãos dele conseguem, aos poucos, avançar por entre as pernas dela.
Ele a olha nos olhos, de vez em quando.
E outras vezes, é como se ela nem estivesse ali, enquanto ele discute assuntos pessoais com a esposa.
Ela está muito tensa, já passou da fase de ter dúvidas se quer ou não, mas ainda está muito nervosa com a presença da outra ali.
A comida chega.
A esposa começa a comer e se concentra.
Ela esperava que ele fizesse o mesmo.
Mas ao contrário.
Ele não dá bola para a comida.
E avança sua mão por entre as pernas dela, até que não tem mais para onde avançar.
Ela dá um pequeno pulo na cadeira.
As mãos dele são quentes, assim como ela.
Ao menos, como ela está agora.
O coração bate rápido.
Ela abre as pernas, devagar. Está suando.
Ela tenta comer algo. Não consegue.
Preciso ir ao banheiro, ele diz. A esposa mal nota.
Ele levanta, e olha pra ela, sério. Sorri.
E sai.
Vai andando até o banheiro masculino. Olha pra trás, a cada 5 passos, para ela.
Ela não sabe o que fazer.
Ele para na porta do banheiro, olha para ela e entra.
Ela levanta.
Não diz nada, apenas sai da mesa.
Vai caminhando, nervosa, para o banheiro feminino.
Chega na porta, olha para os lados.
Ninguém parece notar ela por ali.
Vai até a porta do banheiro masculino.
Entra.
Ela nunca havia entrado num banheiro masculino antes.
Pia, urinóis, muitas portas.
Ele está de pé, em frente a um urinol.
Ele olha pra ela, e sorri.
Ela não sabe o que fazer.
Nervosa.
Muito nervosa.
Alguém poderia entrar a qualquer momento.
Ou sair de alguma das cabines.
Ele anda lentamente até ela, a puxa pela mão e a beija ali, no meio do banheiro.
Quente.
Forte.
Ela esquece onde está.
O coração está muito rápido.
A porta da cabine atrás dela está aberta. Ele a levanta pela cintura e a leva para dentro.
A porta fecha.
Do lado de fora, a porta do banheiro abre.
Ela fica tensa, paralisada.
Ela está tão tensa que não nota ele abrindo sua camisa.
Rápida, mas levemente.
E sua saia.
Ela tenta segurar as mãos dele, mas nem ela mesmo acredita mais nisso.

+_+_+


Silêncio no banheiro.
Ele a veste, rapidamente, e a conduz para fora, em segurança.
Ela, nervosa, atordoada, em êxtase, não sabe o que fazer.
Volte aqui amanhã para outro almoço. Eu devolvo os documentos. Mas chegue no horário.
Ela acena, ainda um pouco fora de si, e vai embora.
E passa a noite toda pensando no dia seguinte.

segunda-feira, maio 04, 2015

Esse obscuro objeto do desejo

- Amor...
- Oi, amor.
- Me diz uma coisa.
- Digo, claro. O quê?
- Queria saber sobre suas fantasias.
- Hum... Que que tem?
- Você já me contou algumas. Mas eu queria saber uma que você não teve coragem de me contar.
- Oi?
- É, uma bem barra pesada. Uma que você quase não tem coragem de admitir pra você mesmo.
- Tenho isso não.
- Ah, fala sério.
- Tô falando sério.
- ...
- Que foi?
- Não acredito.
- Mas por que  eu iria mentir pra você?
- Por vergonha. Por medo.
- Medo de quê?
- De eu achar sua fantasia absurda e te largar.
- Você me largaria por causa de uma fantasia absurda?
- Claro que não?
- Jura?
- Juro!
- Mesmo se eu fantasiasse com sua irmã?
- ...
- Aha!
- Não, amor, tudo bem. Eu entendo. Ela é linda, charmosa, inteligente, eu s...
- Eu NÃO fantasio com sua irmã. Era só um exemplo pra provar que minha fantasia secreta poderia ser tão absurda que você ficaria chocada e reagiria mal.
- Não, tudo bem. Foi só um susto. É só uma fantasia. Eu não acho que você vá cantar minha irmã.
- Eu NÃO fantasio com sua irmã.
- Ok, ok, mas não tem problema, foi só um susto.
- Certo.
- E com o que é, então?
- É sério que nós vamos continuar essa conversa?
- Claro! Eu adoro saber as maluquices que passam por essa cabecinha careca.
- Mas e se for uma coisa repugnante?
- Eu aguento.
- Duvido.
- Aguento, juro!
- Ah, para com isso.
- Por favor! Por favor, me conte!
- E se, sei lá, se eu fosse zoófilo?
- Transar com animais??? Que nojo!
- Viu que eu disse?
- Você gosta disso???
- Não, mas é isso que quero dizer, e SE eu gostasse? Você iria conseguir lidar com isso?
- Assim, é meio nojento...
- Pode ser BEM pior.
- Sério?
- Claro.
- Duvido.
- E se eu fosse zoopedófilo?
- O quê?
- Se eu gostasse não apenas de fazer sexo com animais, mas só com animais na mais tenra idade, antes de alcançarem a maturidade?
- Isso é errado!
- Você que perguntou.
- Nada por ser pior que isso.
- Claro que pode.
- Como assim?
- E se eu fosse zoopedopodófilo?
- Que diabos é isso?
- Alguém que gosta de fazer sexo apenas com as patas de animais ainda em desenvolvimento.
- Você é doente!
- Ah, é mesmo? E se eu fosse necrozoopedopodófilo? Gostasse de fazer sexo com as patas de animais bebês, mas só se eles estivessem mortos?
- Pare! Pare com isso!
- Ou melhor ainda! Copronecrozoopedopodófilo! Que quer transar com patas de animais bebês, mortos, mas apenas as que foram comidas, digeridas e excretadas!
- Que absurdo é esse que você está falando? Pare ou eu vou embora. Pare AGORA!
- Mas você não queria saber? Meus desejos mais profundos?
- Deixe de ser ridículo que você não gosta desses absurdos!
- Não, não. Na verdade minha fantasia envolve patas de animais bebês mortos que foram devoradas, digeridas e excretadas e depois congeladas! Criocopronecrozoopedopodofilia!
- Chega! Chega! CHEGA!
- VAI PIORAR! Pois saiba que eu gosto de fazer exatamente isso, só que embaixo d'água!!! Hidrocriocopronecrozoopedopodofilia!
- !
- É isso mesmo!
- !
- ...
- HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! Seu idiota. Por um momento, você conseguiu me deixar extremamente enojada. Que merda. Mas tudo bem, foi engraçado.

+_+_+_+_+_+_+_+_+_+

- Amor.
- Oi Amor.
- Eu tenho uma fantasia que eu não tive coragem de contar.
- É mesmo? Você se cansou dos bebês bodes mortos congelados comidos excretados e sei lá o que mais?
- Não, é sério.
- Tá, o que é?
- Eu fico pensado que, quando eu morrer, eu...
- Ah, pelo amor de Deus, lá vem você me sacanear. Vá pra porra.
- Não amor, é sério.
- Sai daqui.
- Ô amor. Você sempre reclama que eu nunca me abro com você, que eu falo pouco, e quando eu venho contar um dos meus maiores segredos, você me trata assim.
- ...
- É sério.
- Ok. Me conte.
- Eu fico pensando. Quando eu morrer, eu não queria ser enterrado.
- O que isso tem a ver com fantasia sexual?
- Calma.
- Estou calma.
- Paciência, então.
- Está se esgotando.
- Ouça até o final.
- Continue.
- Quando eu morrer, eu não quero ser enterrado.
- Quer ser cremado?
- Não.
- Quer ter seu corpo doado para a ciência?
- Não, não. Eu quero ser bulinado.
- Como é?
- Isso. Quando eu morrer, eu quero ser bulinado.
- Não entendi.
- Essa é minha fantasia. Eu fantasio que, quando eu morrer, meu corpo seja vilipendiado com fins sexuais.
- Como assim???
- Exatamente assim. Eu me excito imaginando que meu corpo, morto, inerte, será utilizado para fins sexuais por outras pessoas.
- Meu Deus, você não pode estar falando sério.
- E de preferência, que introduzam coisas nos meus orifícios.
- Isso é revoltante!
- Se possível, algo que seja bem frio. Muito frio.
- ?!?!?!?!?
- Algo congelado. Algo que tenha sido congelado.
- Como assim?
- Assim. Talvez fezes que tenham sido congeladas.
- Que TIPO de doente é você????
- De preferência que as fezes tenham origem animal, isso é, que elas tenham vindo de um alimento que um dia foi um bicho.
- Pare! Saia daqui!
- Mas não qualquer parte do bicho. Não, não qualquer parte. A pata. Tem que ser a pata.
- Seu idiota!
- A pata de um bebê animal
- Doente!
- Meu desejo sexual secreto, minha fantasia mais íntima é, depois que eu morrer, que eu seja tocado com fins sexuais com a pata de um animal bebê que foi devorado, digerido e excretado, e em seguida congelado! É isso que eu desejo! Embaixo d'água! É isso sim! eu sou um Necroagrahidrocriocopronecrozoopedopodófilo!!!
- Sai daqui!!!!!

+_+_+_+_+_+_+_+_+_+

- Amor.
- Que é?
- Faz um carinho em mim?
- Vai tomar no cu, porra.
- Só depois de morto.


segunda-feira, fevereiro 23, 2015

Antes de dormir

Enquanto tocava nos cabelos dela, ele pensava no dia seguinte. Ela achava que ele estava concentrado na textura deles, pelo ritmo dos movimentos, e se deliciava.

Ele pensava na sua rotina e nas pequenas decisões que iria tomar ao longo do dia. Ela pensava nele. Como o toque de sua mão era macio, como  o carinho que ele fazia era tão bom, como eles estavam conectados.

Ele pensava no almoço. Amanhã era dia de malassado, e ele detesta malassado, teria que caminhar um pouco mais pra comer naquele à quilo da outra esquina. Ou então ficar no sanduíche mesmo. É, o mais provável é que ficasse com o sanduíche, o da outra esquina era muito abafado.

Ela tinha sono. O cafuné dele era tão bom. Ela estava feliz. Eles estavam juntos há algum tempo, e ele ainda tinha essa conexão com ela.

Ele tinha esquecido que amanhã era dia de revisão de textos. Ele xinga, mentalmente. Revisar o texto dos outros é um porre, ele pensa. Ainda mais quando tem tanta gente que não sabe nem ler, quem dirá escrever.

Ela está inebriada, pelo carinho e pelo amor. O toque gentil, a troca, o sentimento entre eles, era tudo muito reconfortante.

Ele está pensando no filme que ele vai ver com os amigos na quarta.

Boa noite, amor, estou caindo de sono. Te amo muito, ela disse.

Eu também te amo, bebê, respondeu, enquanto pensava no trânsito pra voltar pra casa, e achava que seria melhor esperar um pouco no fliperama da esquina.

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Atenta.

Atenta à mulher que muda os cabelos.
Atenta. São, também, sua força.
Atenta à mulher que assume seu cabelo para si; está a tomar posse de si.
Atenta, é mudança profunda. Roupas são pele; cabelo, expressão da raiz.
Atenta; e anda.

segunda-feira, abril 21, 2014

África e eu

Um dia eu fui à África. Uma entidade muito interessante.

Normalmente se associa a África aos negros, e vice-versa. Que negros? Aqueles, escravizados, trazidos para as Américas. Aí, às vezes, a gente trata a África apenas como cornucópia de negros escravizados. Ou pensa nela assim.

Por exemplo, na minha formação, eu tive uma dificuldade imensa pra internalizar que o Egito era na África. Porque fazem tanta questão de só falar de África como fonte de escravos (e de brigas de “tribos”) que você acaba não conseguindo associar isso a uma das maiores civilizações que já existiram. E aos persas, e aos mouros que foram à península ibérica. Enfim. O imaginário de África fica sendo - graças à maioria das escolas - limitado a etnias pouco evoluídas em termos de tecnologia e sociedade - porque nem isso as escolas ensinam, que as sociedades eram avançadas em termos de funcionamento, hierarquias, normas, leis, tradições, religiões, cultura.

Quando se “descobre” que não só essas etnias representavam muito mais do que era ensinado, mas que no mesmo continente, sistemas sociais extremamente complexos emergiram, dentro de civilizações altamente avançadas, é meio complicado somar as duas coisas.
Então primeiro você aprende tudo deturpado e separado, pra depois ter que desaprender e unir. É bem mais difícil do que parece. E acaba criando um certo desinteresse por África, porque, que diabos de interessante pode ter um continente (que muitos pensam que é um país) que é apenas um fornecedor de escravo (aquele povo terceira classe, que não serve pra nada, não pensa direito, vive se amotinando, etc)?

Morar em Salvador, por incrível que pareça, me ajuda a não me interessar muito por África.
Não apenas porque as escolas não ensinam, mas porque aqui tem muito negro. Muito. Dizem que é a cidade com maior população negra fora de África. Eu não sei. Mas tem muito negro. Então ver pessoas negras é o comum em Salvador. Quer dizer, deveria ser, mas se você olhar em lugares de nicho de gente rica ou classe média alta, vai ver poucos. Mas fora desse mundo - que é pequeno em Salvador - é todo mundo negro. Ou seja, negro, para mim, não era nenhuma novidade. E o normal é que não nos interessemos tanto por coisas que estão ao nosso redor o tempo inteiro. Na infância/adolescência, embora eu me interessasse muito por nossa cultura e “folclore”, me interessava muito pela mitologia grega e nórdica, que eram coisas alheias à minha cultura. Mas nunca me perguntava por África

Aí fui crescendo, estudando, conversando. E me perguntando “que diabos é África?”. Claro que já não era mais um continente provedor de escravos na minha cabeça, mas ainda tinha aquela confusão de somar tudo aquilo que me fora ensinado separadamente naquele espaço.

Quando se consegue somar tudo… acaba sendo difícil de apreender. Aí se começa a entender porque compartimentalizam. Tem que fazer esforço pra juntar tanta coisa diferente num mesmo lugar. É muito grande, muito diverso, cheio de histórias e culturas.

Eu queria ir à África. Não em qualquer lugar. Eu queria ver as pirâmides, ir em Marrocos, ir no Sahara. Os outros lugares não me interessavam muito, porque na minha cabeça domesticada pela escola, eram apenas cidades, pouco desenvolvidas. Nada de novo. Só gente.

Mas era um plano para algum momento num futuro distante. Minha sede pela história clássica ocidental era mais forte, e meus interesses pairavam primeiro por França, Espanha, Alemanha, Grécia, Itália. A África, nos meus planos, viria depois.

Mas eis que África veio antes. Fomos numa aventura filmar um resgate cultural no Benin. Um grupo das Bahias (não é só África que é plural) indo numa das Áfricas.

E foi a primeira vez que eu realmente parei pra estudar África. Tentar entender os países, geografia, povos, línguas, fronteiras, guerras. Se isso tivesse acontecido antes, meu interesse pelo continente seria maior, com certeza.

Me preparei. Benin. Uma tripinha, espremida entre Nigéria, Togo, Niger e Burkina Faso. É tão pequeno que há quem vá de barco à Nigéria pra contrabandear gasolina. Que é vendida na rua em frascos de vidros amontoados. Tão parecido com a Bahia antiga que, no meio da estrada, perdido em pensamentos, me perguntei o que eu estava indo fazer em Cachoeira.

África se mostrou diferente do que eu pensava. Essa África. Que deveria existir em algum lugar, mas seguramente era muito pouco pra se pensar daquele lugar. Muito estranhamento, mas muito sentimento de conforto. Aquele lugar que você não lembra, mas foi muito na infância, e as coisas vão ficando familiares pra você, ao mesmo tempo que são inéditas.

Óbvio que minha relação com África mudou. Muito. Eu penso bastante nessa viagem, adoro viajar. Não foi uma viagem de passeio, foi de trabalho, mas deu pra conhecer e viver muita coisa.

O que era hipótese mal formulada e mal embasada começa a virar prática. Incompleta, limitada, mas prática. Pisar o chão. Ouvir as vozes. Ver as pessoas. Comer. Olhar. E repensar aquele continente. Repensar o que me foi ensinado, por tantos anos. O que foi negligenciado, o que foi esquecido, o que foi não-dito. E as vezes apagar mesmo, pra escrever por cima.

É um país pobre. Tem pessoas muito felizes e sorridentes. Parece com a gente. Mas é diferente.

Que pena, mundo, que me venderam uma falsa África. Foi muito bom ter ido. Eu não sei se volto ao Benin. O mundo é grande, e eu gosto de conhecer outros lugares. Mas foi importante pra eu sentir de perto, e apagar uma história muito mal contada e, com o tempo, reescrevê-la.

sexta-feira, abril 18, 2014

Símbolos, linguagens, curiosidades

JOGO DA VELHA ou QUADRADO. É como as operadoras no Brasil se referem a
este símbolo. o nome correto é cerquilha, mas há quem chame de antífen
ou cardinal, mas algumas pessoas ainda chamam de diese e sustenido
(que são, esses dois últimos, a mesma coisa).

Em inglês, o nome correto é NUMBER SIGN. mas ninguém chama de number
sign. O mais normal era chamarem de POUND SIGN, e depois, apenas
POUND. No celular é chamado de POUND KEY.  Mas hoje em dia é muito
comum chamarem de HASH (hashtag), principalmente fora dos EUA. E a
tecla do telefone vira, então, HASH KEY.

Lembrando que pound também é a medida de dinheiro na Inglaterra, então
POUND SIGN pode ser confundida com outro símbolo: £

NÃO confundir a cerquilha com o sustenido. A cerquilha tem,
obrigatoriamente, duas linhas horizontais. O sustenido não. As linhas
que seriam horizontais devem ter inclinação para cima, para não
sumirem no pentagrama (partitura). Normalmente as linhas "verticais"
da cerquilha não são realmente verticais, mas PODEM ser. No sustenido,
elas devem ser verticais. Em inglês, sustenido se diz sharp (ou dièse,
do francês, ou diese, do grego).

Em francês, a cerquilha (#) se chama croisillon (na França) ou carré
(No Canadá. Significa quadrado). Já o sustenido se chama dièse.

Em espanhol, a cerquilha se chama almohadilla. Mas as pessoas também
podem (insistem em) chamar de numeral, gato, cuadradillo, grilla,
signo de número, cardinal, michi, tatetí ou vieja.

Já a arroba (@), em inglês é "at", ou "at sign". Em francês, arobase
(se lê arobass). Às vezes se diz arroba, arrobas, arrobe ou arrobaxe.
Há quem diga arobasque. Em espanhol é arroba mesmo.

Asterisco (pelo amor de Zeus, não é asterístico), que a telefonia
brasileira insiste em chamar de tecla estrela (ok, no grego significa
pequena estrela), em inglês é asterisk, embora as pessoas insistem em
chamar de star ou splat (!). Em francês é asterisque, e em espanhol é
asterisco (embora também o chama de estrella).

Já que estamos aqui... reticências em inglês se diz ellipsis, também
chamado de suspension point. Do francês, claro, points de suspension.
Em espanhol, pontos suspensivos. São sempre três. Não quatro. Não
cinco. Não dois, mas três pontos.

Dois pontos, em inglês, é colon. Em francês, deus-points, e em
espanhol, dos puntos. Ponto e vírgula é semicolon em inglês,
point-virgule em francês e punto y coma em espanhol.

E vírgula, em inglês é comma, em francês é virgule, e em espanhol é
coma. Vai entender...



Em alemão, nós temos:
Ponto: Punkt.
Vírgula: Komma.
Ponto e vírgula: Semikolon.
Cerquilha: Doppelkreuz.
Dois pontos: Doppelpunkt.
Reticências: Auslassungspunkte.
Arroba (@): At-Zeichen
Sustenido: Kreuz
Asterisco: Sternchen

sexta-feira, junho 07, 2013

Contos de Westeros - A garçonete.

Maddewn era só mais uma garçonete daquela famosa estalagem no entroncamento mais próximo de Darry. Como a maioria das garçonetes, ela já havia sido estuprada diversas vezes. Mesmo todos sabendo que estupro é um crime relativamente grave, é difícil punir a guarda real, ou a guarda dos lordes, ou mesmo os grupos de auto-proclamados rebeldes que passavam muito por ali. E isso diminuiria a entrada de dinheiro consideravelmente.

Ela não era especialmente bonita. Nem especialmente feia. Ela atraía os homens simplesmente porque estava lá. E eles... bem, eles muitas vezes estavam bêbados, cansados da viagem, sem sexo. E, convenhamos, estupro é uma prática muito comum em Westeros.

Algumas garçonetes resolveram lucrar com a situação, então as estalagens e bares eram, de certa forma, prostíbulos. As garçonetes trabalhavam e, se os homens se interessavam por elas, pagavam. Sem confusão, tudo muito prático.

No começo os donos dos negócios não entenderam o potencial econômico da prática, mas logo perceberam que sem confusão - e com uma divisão do pagamento extra do cliente - as estalagens, em geral, funcionavam melhor assim.

Maddewn, contudo, não participava desse esquema. Ela, por algum motivo que ninguém conseguia entender, se recusava a deitar com um homem sem ter desejo por ele. E, por mais que houvesse sempre outras opções disponíveis, possuir uma mulher contra sua vontade parecia ser algo excitante para boa parte dos viajantes daquelas áreas. Talvez para provar que a moça iria gostar no final ("mesmo que aquela vadia não tenha admitido"), ou simplesmente para demonstrar sua virilidade para os outros homens presentes. Ou quaisquer outros motivos igualmente nobres.

Por causa desse comportamento, Maddewn tinhas sérios problemas com o marido. Ele considerava inaceitável que sua mulher não cumprisse com o papel dela de esposa. Afinal, se tem uma coisa que os homens concordam, é que o casamento é (deveria ser) uma maneira de se conseguir sexo grátis. A qualquer hora. Toda mulher deveria cumprir com suas obrigações: cozinhar, arrumar a casa, cuidar das crianças, lavar roupa e deixar seu marido sexualmente satisfeito. Ela não precisa fazer TUDO - para isso servem as prostitutas - mas tem que estar disponível quando necessário.

Mas com Maddewn não era assim. Continua não sendo assim.

Gilmeroy e Maddewn casaram logo depois do fim da colheita de milho, numa vilazinha distante, próxima de Bandallon. Ele, sapateiro, ela, 12 anos. Nada melhor para seu futuro, já nessa idade, conseguir um casamento com um jovem promissor. Além disso, ele era bonito, Gilmeroy. E tinha algum respeito por sua mulher.

As coisas não começaram muito bem. Sejamos francos, quase nenhum casamento aqui em Westeros começa bem. Os homens não são ensinados a lidar com uma mulher para agradá-la, e as mulheres viram mulheres ainda cheirando a leite materno - por mais que trabalhem desde os 6, 7 anos.

Mas realmente, embora Gilmeroy seja gentil, na cama ele era... despreparado. Foi um começo complicado.

Mas Maddewn engravidou cedo, e seu marido não tinha um apetite sexual muito voraz. Quando ela chegou ao sétimo mês de casada, já estava com 4 meses de gravidez. Foi quando perceberam que ela estava grávida e, de comum acordo, acharam melhor parar com as atividades sexuais para "proteger o bebê". Gilmeroy não entendia nada do assunto - e não tinha mais mãe ou irmãs para lhe ajudar - e Maddewn, bastante esperta, se aproveitou da situação para fugir parcialmente de suas obrigações matrimoniais. No nono mês, ela se mudou para a casa da mãe para ter cuidados mais constantes. O bebê nasceu sem grandes problemas, e 40 dias depois Gilmeroy clamava por seus direitos maritais.

Às vezes Maddewn queria deitar com ele. Às vezes não. E embora Gilmeroy tenha sido compreensivo algumas vezes, em geral ele não aceitava um não como resposta. Assim, constantemente, Maddewn era estuprada pelo marido. Não que isso fosse algo fora do padrão, claro. É apenas um comentário.

Mas ela achava que não tinha que se submeter a isso. "É o sangue da avó", dizia sua mãe. A mãe de Maddewn não entendia qual era o problema da filha. Achava que a filha estava procurando confusão com essa rebeldia sem sentido. Afinal, já diziam os deuses, embora a mulher e o homem, depois do matrimônio,  sejam um só, a mulher deve servir a seu senhor. Ou seja, obedecer seu marido.

Maddewn tinha muito medo dos deuses. Medo e respeito, mas mais medo do que respeito, e boa parte do respeito vinha do medo. E ela não gostava de desafiar as ordens dos deuses. Eles deviam saber o que estavam falando, afinal. Mas ela achava simplesmente absurdo ter que se entregar a um homem sem desejá-lo.

Não porque ela quisesse exercer seu papel de ser humano, exercer sua vontade como uma entidade livre, ou de mostrar ao marido que ela tinha algum poder. Mas sim porque era doloroso. Deitar-se com alguém sem ter vontade, para Maddewn, era extremamente doloroso. Fisicamente doloroso. Claro, seus nervos ficavam destruídos, sua auto-estima caía, sua vontade de viver diminuía. Mas o pior era a dor que ela sentia durante o sexo-não-desejado-mas-consentido tão comum entre homem e mulher. Consentido para que o casamento não acabasse, para que a mulher não apanhasse - e tivesse que se deitar com seu marido de qualquer jeito - para que a vida seguisse o rumo que deveria seguir.

Quando a guarda real passou pela cidade, Maddewn sabia que algo de ruim iria acontecer. A Mão-do-rei estava a caminho de Blackcrown, para averiguar uma questão envolvendo o de sempre: chantagem, traição, insubordinação. Embora a cidade - sejamos francos, mal poderíamos chamar o lugar de vilarejo - fosse pequena, estava na rota da comitiva. Os homens pararam para comer e descansar. Ficaram por 4 horas.

Acontece que na vila quase não havia mulheres. Acontece que os homens da comitiva estavam precisando relaxar. Acontece que depois de algumas bebidas, os guardas costumam perder a cabeça. E aconteceu de Maddewn ser estuprada por 7 soldados sem parar por duas horas seguidas.

Acontece que, embora a Mão-do-rei entenda que seus homens precisam de diversão, entretenimento e relaxamento ocasionais, ele também compreendia os limites do aceitável. E os limites haviam sido totalmente trespassados no momento que os guardas que estupraram Maddewn terminaram por matar seu marido, após ele ter perdido a cabeça ao ver a cena e ter tentado impedir.

Gilmeroy não era um mau marido. Era até gentil, e um pouco bonito.

Que Maddewn tivesse sido estuprada, era algo chato. Mais de uma vez, desagradável. Por sete membros da Guarda Real, por duas horas seguidas, era quase inaceitável. Mas ter passado por isso e ter perdido o marido - que era o pai de seu filho e o sustento da família - era demais.

Sabendo que algo assim não passaria despercebido - e as notícias em Westeros não correm, voam - a Mão-do-rei teria que fazer algum acordo com a moça. Claro, compensações financeiras foram dadas. Dinheiro não é exatamente o problema do reino. Mas como Maddewn poderia continuar vivendo ali, sozinha, sendo lembrada por todos como "aquela-que-foi-seguidamente-estuprada-pela-guarda-real-em-tempos-de-paz"?

Mais algum dinheiro foi distribuído entre os moradores, para que o evento fosse apagado da história, e Maddewn foi convidada a morar em outro lugar.

Quando a comitiva voltava de Blackcrown, ela recebeu suas instruções, e foi assumir seu novo e primeiro emprego como garçonete e ajudante de cozinha e limpeza da Estalagem da Encruzilhada. Uma carroça velha a levou, junto com seu filho sem pai. Maddewn, agora portando sua tatuagem de viúva, obedeceu.

Hoje ela pensa em como era feliz. Sua vida simples, com seu filho, mãe por perto, e apenas um estuprador ocasional, era uma vida muito mais fácil do que a que ela tem agora. Além de trabalhar dez horas por dia, cuidar da criança e da casa, ser estuprada ocasionalmente por desconhecidos, ter adquirido algumas doenças por causa disso, ainda tem que ver seu filho crescer num ambiente nada familiar, entre prostitutas, vagabundos, guardas e outros tipos de escória.

Suas colegas sempre lhe perguntam porque ela não aproveita, já que a vida é assim mesmo, para ganhar um trocado a mais com os visitantes. Mas Maddewn não conseguiria aceitar isso.

quinta-feira, maio 30, 2013

Crianças

Eu me relaciono muito mais fácil com crianças do que com adultos. Além da idade mental ser semelhante, as crianças ou querem conversar ou não querem. Ou querem te ouvir ou não querem. Ou querem falar ou não querem. São muito criativas, riem por que sim, e se retam tb. Não ligam muito pra errar, se interessam por novidades (às vezes, claro), inventam histórias.

Gostam de ser levantadas e giradas loucamente, gostam de correr e gritar, gostam de fazer careta e dar língua, gostam de dançar. Gostam de câmera fotográfica, gostam de tinta e pincel, gostam de lápis de cor. Gostam de preto, de branco, de meio termo. Não tem sexo, ou gênero, ou amarras.

E as crianças sorriem os sorrisos mais lindos. Além, claro, de carregarem a maior das responsabilidades sobre o mundo e, por isso mesmo, pra mim, merecem mais cuidado e respeito até dos que já fizeram muito. Porque estes já fizeram, e as crianças TÊM que fazer. E vão pegar uma barra pesada pela frente.

Todas as crianças têm histórias adoráveis e aterrorizantes pra contar. E uma visão de mundo sempre, sempre, sempre apaixonante. Diferente do que você espera.

Quando criança eu não queria ser adulto. Adultos, por mais legais que fossem - o que não era muto comum - eram chatos. Limitados.

Eu sou MEGA chato, eu sei. Cheio de definições. Inclusive, encarar que o mundo é uma merda me fez ficar menos criança, mais chato. E muito limitado.

Não dá pra voltar a ser criança, e eu não quero. Mas é bom, de vez em quando, sentir o gostinho da beleza das coisas, da novidade, das possibilidades diferentes, da surpresa.

Por isso que eu leio, por isso que eu escrevo, por isso que eu trabalho com linguagem. Por isso que eu tento fotografar, tocar violão, jogar futebol. É pra lembrar de como é ser criança. E ser feliz, um pouco, sendo adulto.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Chove.


Chove.

Chove, porra.

Que porra de calor infernal faz essa cidade. Não cai uma porra de uma gota dessa merda desse céu.
Fica aí, todo mundo suado, fedendo, nojento, parecendo um bando de porra junto.
Calor da desgraça.

E não passa uma porra de vento pra aliviar. E a gente é que se foda, todo mundo amarrotado nessa porra desse ônibus. Um bando de desgraça fedorenta, tudo junto, fedendo, suando, reclamando. Inferno.

E fica essa porra desse mar zombando da sua cara. Aí, essa porra toda azul, verde, sei lá, só pra te sacanear. E você indo pra um trabalho fudido, escroto, pra ganhar dois salários mínimos pra meterem uma porrada de merda pra você fazer todo dia. Vida escrota da porra.

E não chove nessa merda. Tem quase um mês que não cai uma porra de gota nessa merda. Nem pra dizer que de madrugada deu um chuvisco, uma aliviada. Porra nenhuma. Vai se fuder, caralho.

E ainda vai esse filha da puta desse motorista dirigindo que nem um escroto. A porra da velha do meu lado quase caiu da cadeira. E esse filho da puta atrás de mim com essa mochila nas costas. Bota essa porra no chão, seu corno. Como se essa porra desse ônibus já não tivesse entupido nessa desgraça. E ainda tem uns filha da puta pra ficar apertando mais. Bando de escroto.

E o outro sacana com essa porra desse rádio ligado. Vai tomar no cu, porra. Desliga essa merda. Não basta estar um calor da desgraça, todo mundo fedendo, apertado, indo pra um trabalho escroto, com um filho da puta dirigindo parecendo que tá comendo a mãe dele, e ainda tem um verme ouvindo rádio. Alto pra caralho. Vai se fuder.

Não aguento mais esse calor. Não é só essa porra dessa sede que dá. Tá com sede, bebe água. É esse abafamento. Porque não pode ser uma porra de um calor seco, não. Tem que ser um calor filha da puta de úmido, abafado, escroto. Nem numa porra de uma sombra essa merda melhora. E fica tudo ensopado de suor, mão, pé, costas, a porra toda. Como é que consegue trabalhar nessa porra desse calor? E ainda tem uns fudidos que têm que trabalhar de terno nesse calor. Vai se fuder. Pior é o filho da puta que manda o fudido trabalhar de terno.

Tem que ser muito filho da puta pra mandar um sacana trabalhar de terno nesse calor. Um sol da desgraça o dia inteiro, e tem corno que bota os sacanas pra correr mundo com esse terno escroto. Como é que aguenta essa porra desse calor nessa desgraça desse terno?

Aí chega na porra da sala, e tem uma desgraça de um ar-condicionado todo velho, barulhento, sujo como a porra, que finge que esfria mas não esfria. E você ainda tem que ficar que nem um sacana fingindo que tá tudo bem, que tá beleza, ficar numa porra de um lugar barulhento, apertado, quente, com uma porra de um ar sujo, com uma luz irritante, que não para de piscar, parecendo um filho da puta resolvendo um monte de merda da vida dos outros que no fundo não vai mudar a porra da vida de ninguém.

Tem que ser muito filho da puta pra ganhar dinheiro empregando gente pra se fuder fazendo coisas que nenhum corno merece, e ainda lucrar pra caralho em cima delas. Tem que ser muito filho da puta.

E ainda tem esse corno com essa porra desse rádio ligado nessa porra desse calor, num aperto da desgraça, num calor do inferno.

Aí chega um escroto e mete uma porra de uma bala num filho da puta desse, e o corno ainda acha ruim. Vai se fuder. E ainda tem o sacana dirigindo parecendo que tá sendo currado por uma manada de elefante. Seu filho da puta. Você tá levando gente, não é pedra não, desgraça.

E se fosse só hoje ainda tudo bem, mas é a mesma porra todo dia. Vai se fuder.

Que calor da porra. Puta que pariu. Que calor insuportável. Não aguento mais essa porra.

Não podia chover? Não podia chover só uma porra de uma hora, pra aliviar esse calor da desgraça? Não podia passar uma porra de um vento pra aliviar essa merda desse calor filho da puta? 

Se bem que essa porra ia ser pior, ia começar a chover e o bando de corno desse ônibus ia fechar as janelas parecendo um bando de puta feito de açúcar. Aí eu ia ter que aguentar a porra do calor, do suor, desse aperto filho da puta, desse sacana fazendo um barulho da porra, do desgraçado dirigindo feito um corno e ainda ia ficar com as porras das janelas todas fechadas. Rebanho de escroto.

Deixa essa porra assim mesmo. Vai todo mundo pra puta que pariu.

sábado, dezembro 29, 2012

A velocidade da gravidade


A velocidade da gravidade
ou
como perguntas inúteis nos fazem avançar

Quando eu era criança, a minha falta de conhecimento sobre as "leis do universo", em conjunto com a quantidade razoável de leitura não-realista (quadrinhos, ficção científica e fantasia) me permitia fazer perguntas... estranhas. Não limitado por conceitos formados ou mundos realistas, eu gostava de criar histórias irreais, fantásticas, mágicas.

Um dia, imaginei um ser multi-poderoso teletransportando um planeta. O planeta, na minha história imaginária (não são todas?) estava em rota de colisão com sua estrela devido a um distúrbio na realidade. Assim, como única maneira de salvar sua terra natal, o ente poderoso teletransportara o planeta para outro local no espaço, não muito distante do original.

Acontece que orbitava o planeta uma estação espacial. E agora, a gravidade que incidia sobre ela era outra.

E a primeira pergunta que eu me fiz, pensando sobre a situação foi: quanto tempo demoraria para a "nova" gravidade do planeta chegar até a estação espacial?

Por mais que eu pensasse no assunto, não cheguei a uma conclusão lógica. Embora na época eu já tivesse alguma familiaridade com a Teoria da Relatividade, e "sabia" que a gravidade pode ser interpretada pela distorção espaço-temporal causada por um corpo, não conseguia chegar a conclusão alguma sobre quão rápido essa distorção se espalharia pelo espaço.

Acabei por desistir do assunto, um pouco frustrado.

Quando o grande oráculo surgiu, nos idos de 2004, eu aproveitei para perguntar coisas que eu sempre quis saber. E lembrei disso.

O que teria acontecido se eu tivesse ido atrás dessa resposta? Não sei, provavelmente variaria a depender do afinco que eu pusesse nessa tarefa. Mas com certeza eu teria estudado mais sobre gravidade, sobre as "ondas gravitacionais". Teria entendido que cientistas importantes também se depararam com o problema. Teria aprendido sobre a matemática desses processos, ou ao menos teria entrado em contato com ela mais cedo. E quem sabe talvez tivesse mesmo seguido os caminhos de pesquisa científica.

Mas eu sempre fui tido como maluco, porque fazia perguntas estranhas e tinha pontos de vista não ordinários. Às vezes eu acabava por acreditar que eu devia ser um pouco maluco. E também por isso, deixava de lado algumas ideias e vontades pra me manter "mais normal".

De qualquer forma, é interessante notar que algumas perguntas muito bobas, ou muito estranhas, nos levam a lugares fantásticos, mesmo que elas não sejam respondidas. Por isso que que eu sempre gostei de filosofia, de física, de matemática.

Ao mesmo tempo é interessante notar que as pessoas não se perguntam sobre as coisas. De modo geral, as pessoas simplesmente vivem, e dão as informações que vão recebendo durante a vida como certas, se é que chegam a pensar sobre isso.

Na minha aula de vólei, quando eu tinha 13 anos, me ensinaram que um abdome trabalhado ajudaria a suspensão do corpo do atleta no ar. "Como", eu perguntei ao professor. Ele não soube me responder. E os outros alunos acharam a minha pergunta estranha, inicialmente, mas depois tiveram a mesma curiosidade.

Eu adoro crianças. Não terei filhos, mas acho esses seres fascinantes, intrigantes e potencialmente fantásticos. Por isso eu adoro as perguntas das crianças. Eu tento estimular que elas tentem se perguntar sobre as coisas. Quando uma criança faz uma pergunta, eu me divirto junto com ela tentando que ela chegue a uma conclusão própria. Nem sempre dá. Mas é muito divertido.

E acima de tudo, eu estimulo as perguntas inúteis. Elas ajudam a estabelecer métodos de extrapolação de raciocínio que não estão presentes em processos mentais de muitos adultos que conheço. E perguntas inúteis tiram um pouco do peso de aprendizado sobre o mundo real e dão ao processo um gosto misto de rebeldia e liberdade. Quem se importa com quem descobriu o Brasil? Eu quero é saber o que aconteceria se eu pulasse num buraco que ligasse dois lados opostos do planeta.

Quanto à minha pergunta: ainda não há uma resposta.

Sobre esse assunto em específico - a velocidade da gravidade - pode-se ler algo nos links abaixo,

1)
http://en.wikipedia.org/wiki/Speed_of_gravity

2)
http://www.astrowatch.net/2012/12/chinese-scientists-find-evidence-for.html

3)
http://www.csa.com/discoveryguides/gravity/overview.php

4)
http://www.csa.com/discoveryguides/gravity/overview.php

5)
http://scienceblogs.com/startswithabang/2010/08/25/what-is-the-speed-of-gravity/

6)
http://www.metaresearch.org/cosmology/speed_of_gravity.asp

sexta-feira, junho 15, 2012

O que é ver?


- Você viu aquilo?
- Vi. O cara colocou a mão na bola de propósito!
- Não, rapaz, a bola bateu na mão dele! Ele nem percebeu que ela estava vindo!

O olho funciona de forma interessante. Algumas faixas de onda eletromagnética são filtradas, convergidas em um aparato que é sensibilizado por elas. Este aparato, também conhecido como retina, transmite a informação recebida, através do nervo ótico, até o cérebro. No cérebro, a informação é decodificada, e nós vemos. Parece "simples".

Mas não é nada simples.

Primeiro, porque o tipo de energia eletromagnética que somos capazes de perceber é, comparativamente com as frequências existentes, muito restrito.

Nosso aparelho de recepção e agrupamento de espectros eletromagnéticos (o olho humano) só consegue perceber, convergir e codificar a energia eletromagnética que possui comprimento de onda entre aproximadamente 400 e 700 nm (nanômetros, ou seja, 0,7 X 10 elevado a menos 6, ou seja, a décima milionésima parte de um metro, ou seja, algo muito muito muito pequeno).

Se considerarmos que existe energia eletromagnética desde a escala do Femtômetro (10 elevado a menos 15 metros, ou 0,000000000000001 metros) até a escala do Megâmetro (10 elevado a 6 metros, ou 1.000.000 metros), então percebemos que, no fim das contas, nossa capacidade de ver as coisas é muito pequena.

Diversos animais conseguem ver mais do que nós. E mesmo as plantas conseguem perceber espectros que nós não percebemos.

Ver não é só perceber a luz. Ninguém diz que o girassol vê a luz do sol. Perceber a luz é o primeiro passo, mas ver envolve também a capacidade de formar imagens, de dar forma ao que se percebe. A maioria dos animais é capaz de ver. Diferente de nós, melhor ou pior do que nós, muitos animais veem (sem acento, de acordo com as novas regras da língua portuguesa).

Acontece que ver não é algo objetivo, mas interpretativo. Há quem diga que a chegada da informação ao cérebro é só a primeira etapa do processo de ver. Para vermos, é preciso interpretação do que vemos.

Essa interpretação pode ser complexa. O diálogo que iniciou o texto é um exemplo bobo, mas eficaz, de como ver não é uma coisa objetiva. Quem já teve oportunidade de se deparar com ilusões de ótica também  já deve ter percebido que o cérebro, independente de nossa vontade, influi muito em como vamos interpretar o que vemos. Uma cor parece diferente a depender do contexto. Uma forma pode se transformar em outra a depender do enfoque. Uma ação pode ser entendida de maneiras diferentes a depender de como seja analisada, vista.

Nós costumamos pensar em como algo que percebemos é, obviamente, aquilo que pensamos que é, ou representa aquilo que pensamos que representa. Temos grande dificuldade de extrapolar o nosso ser e (eu sei que é difícil) tentar "ver" as situações de outra maneira. Meu irmão sempre brincava, quando criança (e eu concordo com ele) dizendo que "o verde que eu vejo não é o mesmo que você vê". E ele está certo - sob um ponto de vista.

Imaginemos que duas pessoas estão, no mesmo momento, a olhar para o mesmo objeto. Imaginemos que este objeto é uma cadeira verde, numa exposição de arte. As duas pessoas se encontram muito próximas, com ângulo de visão muito parecido. A incidência das ondas eletromagnéticas refletidas pela cadeira nos olhos das duas pessoas é praticamente o mesmo. Então, elas estão vendo a mesma cadeira, com o mesmo verde, certo?

Não necessariamente. Primeiro, que suas células são diferentes. Mesmo que nenhuma das duas tenha "defeitos" na percepção da luz (por exemplo, nenhuma é daltônica), suas células são diferentes. Só isso já cria a POSSIBILIDADE de que vejam a mesma cor de forma ligeiramente diferente. No mundo prático, essa diferença pode, ao fim das contas, não fazer diferença. No mundo da discussão filosófica, contudo, você não pode afirmar que elas estão vendo, seguramente, a mesma cor.

Segundo, que cada pessoa traz consigo uma bagagem cultural diferente. São pessoas diferentes, que tiveram educações diferentes, que viveram coisas diferentes, e que interpretam coisas de formas diferentes. Portanto, necessariamente, terão relações diferentes com aquela cadeira verde. Não só porque o verde que uma vê não é o mesmo que a outra vê, mas também porque para uma, cadeiras representam uma coisa e para a outra, outra coisa. Cada uma possui sua própria bagagem conceitual, emocional e prática com cadeiras e com a cor verde. Uma das pessoas pode achar que verde não é uma cor apropriada para cadeiras, enquanto outra pode pensar que uma cadeira verde é uma forma de representar o momento de descanso da natureza. Elocubrações à parte, as experiências, por mais próximas que sejam, são únicas e intransferíveis.

Contudo, pode-se trocar informações sobre essas experiências. Podemos conversar, discutir, argumentar sobre o modo que cada um percebe, vê e pensa aquela cadeira verde. Podemos também tentar entender o que o outro pensa sobre o assunto, como ele viu a cadeira, o que aquilo tudo representa para ele, e tentar mostrar para ele o que aquilo representa para nós. O outro pode discordar, concordar, se divertir, se irritar, a depender de como façamos isso. E vice-versa.

Aí está, para mim, um dos grandes problemas do mundo. Não é um problema novo. Na minha opinião, sob minha perspectiva, na minha ótica, o mundo tem problema de ver pelos olhos dos outros. E não é apenas uma dificuldade conceitual, de entender o que o outro vê, e como ele vê. É um problema de vontade.

Não vejo as pessoas dispostas a, antes de fazer julgamentos sobre ações ou opiniões, tentar entender o ponto de vista do outro. Se alguém te fecha no trânsito, necessariamente é um filho da puta. Se alguém pisa no seu pé, ou é um estúpido que fez isso de propósito, ou é um idiota que não olha por onde anda. Se aquela pessoa grita, a primeira reação é gritar de volta, em vez de tentar entender o que (possivelmente) está afligindo aquela pessoa para que ela tenha tido que gritar conosco.

Se somos necessariamente diferentes, porque não conceber que o outro interpreta as coisas diferentemente de nós e, antes de agir, pensar sobre os motivos que levaram a pessoa X ou Y a agir como agiu? Principalmente quando estamos dispostos a agir com violência ou de alguma forma que vá ferir - não apenas fisicamente - o outro.

Falta paciência, educação, vontade, a todos nós. Acho que precisamos rever isso.

Claro, isso é o meu ponto de vista. Fiquem à vontade para ampliar a minha capacidade de perceber diferentes frequências de ondas eletromagnéticas que extrapolem a física.

sábado, fevereiro 18, 2012

Afã! Farra!


Farra é uma palavra engraçada. Eu sempre penso nas pessoas da geração anterior à minha numa festa semi-hippie, dançando, rindo, com os filhos morrendo de vergonha de ver seus pais se mexendo de forma um tanto medonha - para seus padrões adolescentes.

Nunca associei farra a alguma coisa que não fosse "pura", leve, mas muito divertida e extensa. Quando penso em farra, penso em dança, suor, risadas, nunca em drogas pesadas, gente vomitando, nem nada de ruim.

Nesses dias vi uma mini fanfarra, ou como descobri, um chupa-catarro, descendo a rua na maior farra. Algumas pessoas acompanhando, todas extremamente felizes (mesmo os jovens envergonhados, que não queriam admitir ), debaixo do típico sol do verão soteropolitano, dançando, cantando.

.

Um amigo tem o incrível poder de não-entender, ou entender errado, tudo o que ouve. E uma das frases que ele retrabalhou internamente no seu cérebro resultou na seguinte: "A farra dos fabricantes de sopa". 

Eu sempre me divirto tentando imaginar como seria uma farra dos fabricantes de sopa. 

Várias pessoas com seus chapéus de mestre-cuca, dançando, cantando, numa cozinha cheia de massas, legumes e carnes. Alguns cortando os ingredientes, outros acendendo o fogão, alguns lavando panelas, uns jogando as letrinhas pra cima, como confete, outros batucando com os utensílios, outras ainda tomando sopa. E dançando. Todas muito felizes.

E seus filhos adolescentes, com seus chapéus de mestre-cuca júnior, morrendo de vergonha, e se divertindo secretamente por meio das reclamações, risos, e passos de dança encabulados.

quarta-feira, janeiro 25, 2012

O velho Urso de Pelúcia.

Cansei, pensou o velho urso de pelúcia. Cansei de tentar ser feliz, de seguir os meus sonhos. Cansei de ir atrás de um novo dono a cada 4, 5 anos, de tentar agrada-lo, de tentar encontrar alguém que também me agrade. Cansei de correr atrás de uma coisa que nunca será duradoura, e por mais que enquanto esteja, seja completa, termina.

Cansei.

E então o velho urso de pelúcia fez uma fogueira bem grande e pulou dentro dela.

Cinzas jogadas em um caminhão.

sábado, setembro 24, 2011

Kláudio


A vida de Kláudio poderia ter sido boa. E não estou nem considerando o fato de que quase todos o chamam de cráudio, ou de que seu nome é escrito com K, o que normalmente causa, se não confusão, um mínimo de atraso em qualquer procedimento que ele tenha que dizer seu nome para algum atendente de repartição pública - o que aliás é muito comum na vida de Kláudio, ter que fornecer seus dados para atendentes, sejam de repartições públicas ou privadas. Ou mesmo pelas piadas incessantes de colegas de escolas e, posteriormente, colegas de trabalho, pela excentricidade da escrita do seu nome, num país em que se tem liberdade para chamar-se como bem se entenda - ou como bem seus pais entendam.

Também não é porque Kláudio tem um emprego meia boca, desinteressante, que não oferece nem perspectiva de melhora, nem aprendizado, nem ao menos colegas bonitas para se relacionar amorosamente, de forma ocasional.

A vida dele é uma merda porque ele escolheu virar à direita em vez de virar à esquerda no dia 02 de agosto de 1997.

Alguém provavelmente vai dizer "que absurdo", afinal de contas não é possível que a vida de alguém se diferencie tanto só porque um dia ele resolveu ir pra um lado em vez de ir para o outro lado. Mas é por isso mesmo.

No dia 02 de agosto de 1997 - eu não me lembro, não estava lá, mas sei muito bem - Kláudio fez o que fazia normalmente pela manhã, que era sair para o trabalho. Na época ele trabalhava numa loja em frente ao emprego atual. Ele estava atrasado, e em vez de ir andando, o que fazia todos os dias, ele resolveu pegar um ônibus. Na verdade ele não estava atrasado, se formos rigorosos com o termo, porque Kláudio sempre chegava entre 10 e 15 minutos antes da loja abrir, sem real necessidade. Por isso que, se ele fosse andando, não chegaria atrasado, chegaria no momento de abertura da loja.

Mas ele decidiu pegar o ônibus, então, ao sair de casa, ele deveria virar à direita no cruzamento de sua rua com a Tenente Pires. Seu caminho habitual seria seguir a Tenente Pires pela contramão, atravessá-la, descer uma escada, atravessar a Avenida Tuiuiú, subir outra escada, passar por duas vielas, uma travessa, entrar na Alameda Gil Vicente, andar aproximadamente 300 metros, e finalmente chegar ao trabalho, percursos que ele fazia em pouco menos de meia hora.

Virando à direita, ele segue o fluxo de carros da Tenente Pires até o ponto, pega qualquer ônibus, segue a Tenente Pires até a Albuquerque Figueroa, onde Kláudio desce já próximo à Gil Vicente, para andar cerca de 150 metros. Ele até preferiria fazer o trajeto de ônibus todos os dias, pela comodidade, se existisse comodidade, já que o trânsito é sempre cheio, e nunca tem lugar vago pra sentar. Sem contar, claro, o custo. Caminhando ele faz algum exercício, economiza dinheiro, e acaba gastando quase o mesmo tempo de percurso. Quase. Para ele, no dia 02 de agosto, os 10 minutos a menos de gasto de tempo para ir ao trabalho foram motivo suficiente para decidir pegar o ônibus em vez de caminhar.

Talvez o motivo para ter virado à direita tenha sido realmente não se atrasar, mas como já se sabe, se ele fosse andando e chegasse 10 ou até mesmo 15 minutos depois do habitual, ninguém notaria, quem dirá reclamaria. Mesmo que ele chegasse 30 minutos depois, as chances são de que ninguém sequer percebesse que ele ainda não tinha chegado. Ele sabia disso perfeitamente. Por isso, às vezes, pensando sobre esse caso, eu me pergunto qual foi o motivo real, se é que houve outro, para que Kláudio acabasse por virar à direita em vez da costumeira esquerda.

O que importa é que, por causa disso, a vida dele acabou onde acabará, que é onde acabam as vidas sem graça e emoção, ou seja, uma aposentadoria chata, com uma mulher chata, e filhos chatos, pouco dinheiro, pouca coisa pra se orgulhar, menos ainda pra se arrepender - que ele saiba - com um enterro simples, num cemitério de quinta, numa segunda, com 7 pessoas, e poucas recordações.

Se ele tivesse virado à esquerda, como sempre, ou como quase sempre, ele poderia, finalmente, encontrar com Paulo, aquele amigo que estava lhe devendo dinheiro - não era muito, mas dinheiro é sempre bem vindo - e que, semanas depois, foi embora pra Manaus e nunca mais se viram, se falaram ou mesmo pensaram um no outro, e ele poderia fazer aquele curso de informática que ele tanto queria, mas nunca conseguia. Kláudio poderia, também, encontrar com Girlane, aquela ex-colega do último ano, que tinha uma quedinha por ele, mas que tinham se desencontrado depois que ele largou o colégio e se mudou pra trabalhar como entregador na loja de um conhecido de seu pai. Inevitavelmente, Kláudio iria passar na frente da casa de Dona Tereza, tia de Bito, que ia dizer que estavam procurando alguém pra trabalhar numa loja nova que ia abrir ali perto, e que ia indicar ele. Ele poderia passar, como quase sempre fazia, na padaria Pão Preto, pra comprar o lanche de todo dia, porque Kláudio não toma café da manhã, e prefere comer alguma coisa por volta das 10h, pra poder ficar atendendo no horário de almoço, enquanto o chefe come, e lá encontraria Zé Negão, que tinha acabado de chegar de viagem e passava ali por acaso, e ia convida-lo pra pegar o baba de quarta de noite. E finalmente, porque chegaria um pouco depois do horário habitual, encontraria Quinho, seu irmão, logo na esquina, e iria ter uma chance de pedir desculpas e voltar a falar com ele e com o resto da família.

Mas Kláudio virou à direita. Não pegou o dinheiro que estavam devendo, ficando sem sobra pra fazer aquele curso de computação, nem começou o namoro com Girlane, e nunca mais conheceu alguma mulher minimamente interessante que se interessasse por ele, nem pegou o emprego com Dona Tereza, na mesma loja que hoje ele trabalha, mas porque pegaria o emprego logo de começo, já estaria num cargo  de menor responsabilidade e maior remuneração, ainda mais se conseguisse fazer o curso de informática que queria com o dinheiro que tinha emprestado, nem encontrou Zé Negão, e nunca mais teve ânimo ou convite pra fazer nenhum esporte e acabou virando um sedentário preguiçoso, e nem encontrou Quinho, e nunca mais falou com ninguém de sua família, e morreu sem ter tido um casamento feliz, um emprego legal, sem conhecer os sobrinhos, sem saber de notícias da família, sem perspectiva, sem sonhos, e sem ser lembrado por ninguém.

segunda-feira, junho 13, 2011

sábado, dezembro 25, 2010