domingo, agosto 16, 2015

No restaurante


Ela estava atrasada. De propósito.
O cliente sempre a deixava esperando.
Pagava bem, tinha um caso relativamente fácil.
Mas abusava.
Ela decidiu não correr.
De longe podia saber onde ele estava.
Ele atraía a atenção das garçonetes.
As gorjetas ajudavam.
Mas ele era muito bonito.
Sorriso bonito, rosto bonito.
E ele também tinha um "quê" diferente.
Um ar, um sorriso diferente.
Ela se dirige à mesa dele.
Já sorrindo - ele sempre a recebe com uma cantada boba, mas bonitinha.
Mas dessa vez ele está acompanhado.
Ela para, um pouco assustada, um pouco contrariada.
Se sentiu um pouco traída.
"Que besteira, nós não temos nada".
Respirou e seguiu.
Ele a viu, sorriu e levantou, enquanto fazia o pedido à garçonete que não tirava os olhos dele.
Olá, disse, estendendo a mão, com um grande sorriso no rosto.
Ela ficou um pouco envergonhada, olhava de soslaio para a mulher à mesa, mas estendeu a mão, sem falar nada.
Ele puxa uma cadeira. Sente-se, por favor, bem ao seu lado.
Ela senta.
Esta é minha esposa, Júlia.
Como vai.
Prazer.
Espero que a presença dela não atrapalhe a nossa reunião.
Não, não, de forma alguma, ela diz, enquanto pensa, com um pouco de raiva: ele é casado!
Enfim.
Negócios.
Ela começa a lhe explicar o rumo que o caso deve tomar.
Ele chega mais próximo a ela. A esposa nem pisca.
Ele tem um perfume leve, muito gostoso, que só é possível sentir bem de perto.
Enquanto discutem o caso ele fica sério.
Ela acha bonito.
Ela gosta dos olhos dele seguindo as linhas dos papéis, enquanto a testa franze.
Ele pergunta algumas coisas, e sorri com as respostas.
Eles estão bem próximos, as pernas se tocam.
Até que a garçonete traz as entradas.
Pedi pensando em você também.
Eles guardam os papeis por alguns instantes. Vão se servir, suas mãos se tocam, levemente. Ela sente algo, ele parece não perceber.
A esposa dele está ocupada num telefonema interminável.
Ele oferece um petisco à esposa, que recusa.
Ele ri, e oferece a ela.
Ela acena, mas toma um susto, porque ele levou o petisco à sua boca.
Ela para, olha para a esposa dele, ao lado, alheia a tudo. Ele sorri, e insiste, com o olhar.
Ela aceita.
Seus lábios, levemente, tocam as pontas de seus dedos.
Ele sorri, satisfeito.
Comem um pouco. Ele a serve uma taça de vinho.
Não falam nada. Ele olha para o vazio, e de vez em quando olha para ela, bem nos olhos.
Ela fica um pouco intimidada.
Mas gosta.
Ela sorri, tímida.
Bebem.
Mais um pedaço de algo.
Ela fica com o canto da boca sujo.
Ele se apressa em limpar.
Ela gela.
Olha para o lado.
A esposa não está mais lá.
Ela procura Júlia com o olhar, e a encontra fora do restaurante, falando ao telefone.
A mão dele, agora em seu queixo, a traz de volta para a mesa.
Eles se olham profundamente por quase um minuto. A mão dele deixa seu rosto, desce para sua mão.
Ela treme, um pouco, nervosa. Não sabe o que fazer. E se a esposa voltar? Ela não quer nada com homens casados.
As mãos dele são um pouco pesadas e fortes, mas são macias.
Ele acaricia sua mão, enquanto a olha.
Júlia está voltando para a mesa. Ele sorri, aponta para a esposa com o queixo, e se afasta um pouco.
Ela respira, aliviada.
Uma garçonete se aproxima, com o cardápio. Ele faz pedidos para todos.
A esposa termina o telefonema, come algo. Eles dois se afastam um pouco, mas a mão dele continua sobre os joelhos dela.
Ela está incomodada.
É bom, mas é estranho, e tenso.
A mulher dele está ali, do outro lado da mesa.
Ele fala com a mulher sobre um evento que eles precisam ir na semana seguinte, enquanto inicia um carinho nos joelhos dela.
Lentamente.
Ela segura sua mão, mas ele não para.
É mais forte.
E ela não tem certeza se quer que ele pare.
Mais um vinho. Mais uma taça.
As mãos dele conseguem, aos poucos, avançar por entre as pernas dela.
Ele a olha nos olhos, de vez em quando.
E outras vezes, é como se ela nem estivesse ali, enquanto ele discute assuntos pessoais com a esposa.
Ela está muito tensa, já passou da fase de ter dúvidas se quer ou não, mas ainda está muito nervosa com a presença da outra ali.
A comida chega.
A esposa começa a comer e se concentra.
Ela esperava que ele fizesse o mesmo.
Mas ao contrário.
Ele não dá bola para a comida.
E avança sua mão por entre as pernas dela, até que não tem mais para onde avançar.
Ela dá um pequeno pulo na cadeira.
As mãos dele são quentes, assim como ela.
Ao menos, como ela está agora.
O coração bate rápido.
Ela abre as pernas, devagar. Está suando.
Ela tenta comer algo. Não consegue.
Preciso ir ao banheiro, ele diz. A esposa mal nota.
Ele levanta, e olha pra ela, sério. Sorri.
E sai.
Vai andando até o banheiro masculino. Olha pra trás, a cada 5 passos, para ela.
Ela não sabe o que fazer.
Ele para na porta do banheiro, olha para ela e entra.
Ela levanta.
Não diz nada, apenas sai da mesa.
Vai caminhando, nervosa, para o banheiro feminino.
Chega na porta, olha para os lados.
Ninguém parece notar ela por ali.
Vai até a porta do banheiro masculino.
Entra.
Ela nunca havia entrado num banheiro masculino antes.
Pia, urinóis, muitas portas.
Ele está de pé, em frente a um urinol.
Ele olha pra ela, e sorri.
Ela não sabe o que fazer.
Nervosa.
Muito nervosa.
Alguém poderia entrar a qualquer momento.
Ou sair de alguma das cabines.
Ele anda lentamente até ela, a puxa pela mão e a beija ali, no meio do banheiro.
Quente.
Forte.
Ela esquece onde está.
O coração está muito rápido.
A porta da cabine atrás dela está aberta. Ele a levanta pela cintura e a leva para dentro.
A porta fecha.
Do lado de fora, a porta do banheiro abre.
Ela fica tensa, paralisada.
Ela está tão tensa que não nota ele abrindo sua camisa.
Rápida, mas levemente.
E sua saia.
Ela tenta segurar as mãos dele, mas nem ela mesmo acredita mais nisso.

+_+_+


Silêncio no banheiro.
Ele a veste, rapidamente, e a conduz para fora, em segurança.
Ela, nervosa, atordoada, em êxtase, não sabe o que fazer.
Volte aqui amanhã para outro almoço. Eu devolvo os documentos. Mas chegue no horário.
Ela acena, ainda um pouco fora de si, e vai embora.
E passa a noite toda pensando no dia seguinte.

segunda-feira, maio 04, 2015

Esse obscuro objeto do desejo

- Amor...
- Oi, amor.
- Me diz uma coisa.
- Digo, claro. O quê?
- Queria saber sobre suas fantasias.
- Hum... Que que tem?
- Você já me contou algumas. Mas eu queria saber uma que você não teve coragem de me contar.
- Oi?
- É, uma bem barra pesada. Uma que você quase não tem coragem de admitir pra você mesmo.
- Tenho isso não.
- Ah, fala sério.
- Tô falando sério.
- ...
- Que foi?
- Não acredito.
- Mas por que  eu iria mentir pra você?
- Por vergonha. Por medo.
- Medo de quê?
- De eu achar sua fantasia absurda e te largar.
- Você me largaria por causa de uma fantasia absurda?
- Claro que não?
- Jura?
- Juro!
- Mesmo se eu fantasiasse com sua irmã?
- ...
- Aha!
- Não, amor, tudo bem. Eu entendo. Ela é linda, charmosa, inteligente, eu s...
- Eu NÃO fantasio com sua irmã. Era só um exemplo pra provar que minha fantasia secreta poderia ser tão absurda que você ficaria chocada e reagiria mal.
- Não, tudo bem. Foi só um susto. É só uma fantasia. Eu não acho que você vá cantar minha irmã.
- Eu NÃO fantasio com sua irmã.
- Ok, ok, mas não tem problema, foi só um susto.
- Certo.
- E com o que é, então?
- É sério que nós vamos continuar essa conversa?
- Claro! Eu adoro saber as maluquices que passam por essa cabecinha careca.
- Mas e se for uma coisa repugnante?
- Eu aguento.
- Duvido.
- Aguento, juro!
- Ah, para com isso.
- Por favor! Por favor, me conte!
- E se, sei lá, se eu fosse zoófilo?
- Transar com animais??? Que nojo!
- Viu que eu disse?
- Você gosta disso???
- Não, mas é isso que quero dizer, e SE eu gostasse? Você iria conseguir lidar com isso?
- Assim, é meio nojento...
- Pode ser BEM pior.
- Sério?
- Claro.
- Duvido.
- E se eu fosse zoopedófilo?
- O quê?
- Se eu gostasse não apenas de fazer sexo com animais, mas só com animais na mais tenra idade, antes de alcançarem a maturidade?
- Isso é errado!
- Você que perguntou.
- Nada por ser pior que isso.
- Claro que pode.
- Como assim?
- E se eu fosse zoopedopodófilo?
- Que diabos é isso?
- Alguém que gosta de fazer sexo apenas com as patas de animais ainda em desenvolvimento.
- Você é doente!
- Ah, é mesmo? E se eu fosse necrozoopedopodófilo? Gostasse de fazer sexo com as patas de animais bebês, mas só se eles estivessem mortos?
- Pare! Pare com isso!
- Ou melhor ainda! Copronecrozoopedopodófilo! Que quer transar com patas de animais bebês, mortos, mas apenas as que foram comidas, digeridas e excretadas!
- Que absurdo é esse que você está falando? Pare ou eu vou embora. Pare AGORA!
- Mas você não queria saber? Meus desejos mais profundos?
- Deixe de ser ridículo que você não gosta desses absurdos!
- Não, não. Na verdade minha fantasia envolve patas de animais bebês mortos que foram devoradas, digeridas e excretadas e depois congeladas! Criocopronecrozoopedopodofilia!
- Chega! Chega! CHEGA!
- VAI PIORAR! Pois saiba que eu gosto de fazer exatamente isso, só que embaixo d'água!!! Hidrocriocopronecrozoopedopodofilia!
- !
- É isso mesmo!
- !
- ...
- HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! Seu idiota. Por um momento, você conseguiu me deixar extremamente enojada. Que merda. Mas tudo bem, foi engraçado.

+_+_+_+_+_+_+_+_+_+

- Amor.
- Oi Amor.
- Eu tenho uma fantasia que eu não tive coragem de contar.
- É mesmo? Você se cansou dos bebês bodes mortos congelados comidos excretados e sei lá o que mais?
- Não, é sério.
- Tá, o que é?
- Eu fico pensado que, quando eu morrer, eu...
- Ah, pelo amor de Deus, lá vem você me sacanear. Vá pra porra.
- Não amor, é sério.
- Sai daqui.
- Ô amor. Você sempre reclama que eu nunca me abro com você, que eu falo pouco, e quando eu venho contar um dos meus maiores segredos, você me trata assim.
- ...
- É sério.
- Ok. Me conte.
- Eu fico pensando. Quando eu morrer, eu não queria ser enterrado.
- O que isso tem a ver com fantasia sexual?
- Calma.
- Estou calma.
- Paciência, então.
- Está se esgotando.
- Ouça até o final.
- Continue.
- Quando eu morrer, eu não quero ser enterrado.
- Quer ser cremado?
- Não.
- Quer ter seu corpo doado para a ciência?
- Não, não. Eu quero ser bulinado.
- Como é?
- Isso. Quando eu morrer, eu quero ser bulinado.
- Não entendi.
- Essa é minha fantasia. Eu fantasio que, quando eu morrer, meu corpo seja vilipendiado com fins sexuais.
- Como assim???
- Exatamente assim. Eu me excito imaginando que meu corpo, morto, inerte, será utilizado para fins sexuais por outras pessoas.
- Meu Deus, você não pode estar falando sério.
- E de preferência, que introduzam coisas nos meus orifícios.
- Isso é revoltante!
- Se possível, algo que seja bem frio. Muito frio.
- ?!?!?!?!?
- Algo congelado. Algo que tenha sido congelado.
- Como assim?
- Assim. Talvez fezes que tenham sido congeladas.
- Que TIPO de doente é você????
- De preferência que as fezes tenham origem animal, isso é, que elas tenham vindo de um alimento que um dia foi um bicho.
- Pare! Saia daqui!
- Mas não qualquer parte do bicho. Não, não qualquer parte. A pata. Tem que ser a pata.
- Seu idiota!
- A pata de um bebê animal
- Doente!
- Meu desejo sexual secreto, minha fantasia mais íntima é, depois que eu morrer, que eu seja tocado com fins sexuais com a pata de um animal bebê que foi devorado, digerido e excretado, e em seguida congelado! É isso que eu desejo! Embaixo d'água! É isso sim! eu sou um Necroagrahidrocriocopronecrozoopedopodófilo!!!
- Sai daqui!!!!!

+_+_+_+_+_+_+_+_+_+

- Amor.
- Que é?
- Faz um carinho em mim?
- Vai tomar no cu, porra.
- Só depois de morto.


segunda-feira, fevereiro 23, 2015

Antes de dormir

Enquanto tocava nos cabelos dela, ele pensava no dia seguinte. Ela achava que ele estava concentrado na textura deles, pelo ritmo dos movimentos, e se deliciava.

Ele pensava na sua rotina e nas pequenas decisões que iria tomar ao longo do dia. Ela pensava nele. Como o toque de sua mão era macio, como  o carinho que ele fazia era tão bom, como eles estavam conectados.

Ele pensava no almoço. Amanhã era dia de malassado, e ele detesta malassado, teria que caminhar um pouco mais pra comer naquele à quilo da outra esquina. Ou então ficar no sanduíche mesmo. É, o mais provável é que ficasse com o sanduíche, o da outra esquina era muito abafado.

Ela tinha sono. O cafuné dele era tão bom. Ela estava feliz. Eles estavam juntos há algum tempo, e ele ainda tinha essa conexão com ela.

Ele tinha esquecido que amanhã era dia de revisão de textos. Ele xinga, mentalmente. Revisar o texto dos outros é um porre, ele pensa. Ainda mais quando tem tanta gente que não sabe nem ler, quem dirá escrever.

Ela está inebriada, pelo carinho e pelo amor. O toque gentil, a troca, o sentimento entre eles, era tudo muito reconfortante.

Ele está pensando no filme que ele vai ver com os amigos na quarta.

Boa noite, amor, estou caindo de sono. Te amo muito, ela disse.

Eu também te amo, bebê, respondeu, enquanto pensava no trânsito pra voltar pra casa, e achava que seria melhor esperar um pouco no fliperama da esquina.

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Atenta.

Atenta à mulher que muda os cabelos.
Atenta. São, também, sua força.
Atenta à mulher que assume seu cabelo para si; está a tomar posse de si.
Atenta, é mudança profunda. Roupas são pele; cabelo, expressão da raiz.
Atenta; e anda.

segunda-feira, abril 21, 2014

África e eu

Um dia eu fui à África. Uma entidade muito interessante.

Normalmente se associa a África aos negros, e vice-versa. Que negros? Aqueles, escravizados, trazidos para as Américas. Aí, às vezes, a gente trata a África apenas como cornucópia de negros escravizados. Ou pensa nela assim.

Por exemplo, na minha formação, eu tive uma dificuldade imensa pra internalizar que o Egito era na África. Porque fazem tanta questão de só falar de África como fonte de escravos (e de brigas de “tribos”) que você acaba não conseguindo associar isso a uma das maiores civilizações que já existiram. E aos persas, e aos mouros que foram à península ibérica. Enfim. O imaginário de África fica sendo - graças à maioria das escolas - limitado a etnias pouco evoluídas em termos de tecnologia e sociedade - porque nem isso as escolas ensinam, que as sociedades eram avançadas em termos de funcionamento, hierarquias, normas, leis, tradições, religiões, cultura.

Quando se “descobre” que não só essas etnias representavam muito mais do que era ensinado, mas que no mesmo continente, sistemas sociais extremamente complexos emergiram, dentro de civilizações altamente avançadas, é meio complicado somar as duas coisas.
Então primeiro você aprende tudo deturpado e separado, pra depois ter que desaprender e unir. É bem mais difícil do que parece. E acaba criando um certo desinteresse por África, porque, que diabos de interessante pode ter um continente (que muitos pensam que é um país) que é apenas um fornecedor de escravo (aquele povo terceira classe, que não serve pra nada, não pensa direito, vive se amotinando, etc)?

Morar em Salvador, por incrível que pareça, me ajuda a não me interessar muito por África.
Não apenas porque as escolas não ensinam, mas porque aqui tem muito negro. Muito. Dizem que é a cidade com maior população negra fora de África. Eu não sei. Mas tem muito negro. Então ver pessoas negras é o comum em Salvador. Quer dizer, deveria ser, mas se você olhar em lugares de nicho de gente rica ou classe média alta, vai ver poucos. Mas fora desse mundo - que é pequeno em Salvador - é todo mundo negro. Ou seja, negro, para mim, não era nenhuma novidade. E o normal é que não nos interessemos tanto por coisas que estão ao nosso redor o tempo inteiro. Na infância/adolescência, embora eu me interessasse muito por nossa cultura e “folclore”, me interessava muito pela mitologia grega e nórdica, que eram coisas alheias à minha cultura. Mas nunca me perguntava por África

Aí fui crescendo, estudando, conversando. E me perguntando “que diabos é África?”. Claro que já não era mais um continente provedor de escravos na minha cabeça, mas ainda tinha aquela confusão de somar tudo aquilo que me fora ensinado separadamente naquele espaço.

Quando se consegue somar tudo… acaba sendo difícil de apreender. Aí se começa a entender porque compartimentalizam. Tem que fazer esforço pra juntar tanta coisa diferente num mesmo lugar. É muito grande, muito diverso, cheio de histórias e culturas.

Eu queria ir à África. Não em qualquer lugar. Eu queria ver as pirâmides, ir em Marrocos, ir no Sahara. Os outros lugares não me interessavam muito, porque na minha cabeça domesticada pela escola, eram apenas cidades, pouco desenvolvidas. Nada de novo. Só gente.

Mas era um plano para algum momento num futuro distante. Minha sede pela história clássica ocidental era mais forte, e meus interesses pairavam primeiro por França, Espanha, Alemanha, Grécia, Itália. A África, nos meus planos, viria depois.

Mas eis que África veio antes. Fomos numa aventura filmar um resgate cultural no Benin. Um grupo das Bahias (não é só África que é plural) indo numa das Áfricas.

E foi a primeira vez que eu realmente parei pra estudar África. Tentar entender os países, geografia, povos, línguas, fronteiras, guerras. Se isso tivesse acontecido antes, meu interesse pelo continente seria maior, com certeza.

Me preparei. Benin. Uma tripinha, espremida entre Nigéria, Togo, Niger e Burkina Faso. É tão pequeno que há quem vá de barco à Nigéria pra contrabandear gasolina. Que é vendida na rua em frascos de vidros amontoados. Tão parecido com a Bahia antiga que, no meio da estrada, perdido em pensamentos, me perguntei o que eu estava indo fazer em Cachoeira.

África se mostrou diferente do que eu pensava. Essa África. Que deveria existir em algum lugar, mas seguramente era muito pouco pra se pensar daquele lugar. Muito estranhamento, mas muito sentimento de conforto. Aquele lugar que você não lembra, mas foi muito na infância, e as coisas vão ficando familiares pra você, ao mesmo tempo que são inéditas.

Óbvio que minha relação com África mudou. Muito. Eu penso bastante nessa viagem, adoro viajar. Não foi uma viagem de passeio, foi de trabalho, mas deu pra conhecer e viver muita coisa.

O que era hipótese mal formulada e mal embasada começa a virar prática. Incompleta, limitada, mas prática. Pisar o chão. Ouvir as vozes. Ver as pessoas. Comer. Olhar. E repensar aquele continente. Repensar o que me foi ensinado, por tantos anos. O que foi negligenciado, o que foi esquecido, o que foi não-dito. E as vezes apagar mesmo, pra escrever por cima.

É um país pobre. Tem pessoas muito felizes e sorridentes. Parece com a gente. Mas é diferente.

Que pena, mundo, que me venderam uma falsa África. Foi muito bom ter ido. Eu não sei se volto ao Benin. O mundo é grande, e eu gosto de conhecer outros lugares. Mas foi importante pra eu sentir de perto, e apagar uma história muito mal contada e, com o tempo, reescrevê-la.

sexta-feira, abril 18, 2014

Símbolos, linguagens, curiosidades

JOGO DA VELHA ou QUADRADO. É como as operadoras no Brasil se referem a
este símbolo. o nome correto é cerquilha, mas há quem chame de antífen
ou cardinal, mas algumas pessoas ainda chamam de diese e sustenido
(que são, esses dois últimos, a mesma coisa).

Em inglês, o nome correto é NUMBER SIGN. mas ninguém chama de number
sign. O mais normal era chamarem de POUND SIGN, e depois, apenas
POUND. No celular é chamado de POUND KEY.  Mas hoje em dia é muito
comum chamarem de HASH (hashtag), principalmente fora dos EUA. E a
tecla do telefone vira, então, HASH KEY.

Lembrando que pound também é a medida de dinheiro na Inglaterra, então
POUND SIGN pode ser confundida com outro símbolo: £

NÃO confundir a cerquilha com o sustenido. A cerquilha tem,
obrigatoriamente, duas linhas horizontais. O sustenido não. As linhas
que seriam horizontais devem ter inclinação para cima, para não
sumirem no pentagrama (partitura). Normalmente as linhas "verticais"
da cerquilha não são realmente verticais, mas PODEM ser. No sustenido,
elas devem ser verticais. Em inglês, sustenido se diz sharp (ou dièse,
do francês, ou diese, do grego).

Em francês, a cerquilha (#) se chama croisillon (na França) ou carré
(No Canadá. Significa quadrado). Já o sustenido se chama dièse.

Em espanhol, a cerquilha se chama almohadilla. Mas as pessoas também
podem (insistem em) chamar de numeral, gato, cuadradillo, grilla,
signo de número, cardinal, michi, tatetí ou vieja.

Já a arroba (@), em inglês é "at", ou "at sign". Em francês, arobase
(se lê arobass). Às vezes se diz arroba, arrobas, arrobe ou arrobaxe.
Há quem diga arobasque. Em espanhol é arroba mesmo.

Asterisco (pelo amor de Zeus, não é asterístico), que a telefonia
brasileira insiste em chamar de tecla estrela (ok, no grego significa
pequena estrela), em inglês é asterisk, embora as pessoas insistem em
chamar de star ou splat (!). Em francês é asterisque, e em espanhol é
asterisco (embora também o chama de estrella).

Já que estamos aqui... reticências em inglês se diz ellipsis, também
chamado de suspension point. Do francês, claro, points de suspension.
Em espanhol, pontos suspensivos. São sempre três. Não quatro. Não
cinco. Não dois, mas três pontos.

Dois pontos, em inglês, é colon. Em francês, deus-points, e em
espanhol, dos puntos. Ponto e vírgula é semicolon em inglês,
point-virgule em francês e punto y coma em espanhol.

E vírgula, em inglês é comma, em francês é virgule, e em espanhol é
coma. Vai entender...



Em alemão, nós temos:
Ponto: Punkt.
Vírgula: Komma.
Ponto e vírgula: Semikolon.
Cerquilha: Doppelkreuz.
Dois pontos: Doppelpunkt.
Reticências: Auslassungspunkte.
Arroba (@): At-Zeichen
Sustenido: Kreuz
Asterisco: Sternchen

sexta-feira, junho 07, 2013

Contos de Westeros - A garçonete.

Maddewn era só mais uma garçonete daquela famosa estalagem no entroncamento mais próximo de Darry. Como a maioria das garçonetes, ela já havia sido estuprada diversas vezes. Mesmo todos sabendo que estupro é um crime relativamente grave, é difícil punir a guarda real, ou a guarda dos lordes, ou mesmo os grupos de auto-proclamados rebeldes que passavam muito por ali. E isso diminuiria a entrada de dinheiro consideravelmente.

Ela não era especialmente bonita. Nem especialmente feia. Ela atraía os homens simplesmente porque estava lá. E eles... bem, eles muitas vezes estavam bêbados, cansados da viagem, sem sexo. E, convenhamos, estupro é uma prática muito comum em Westeros.

Algumas garçonetes resolveram lucrar com a situação, então as estalagens e bares eram, de certa forma, prostíbulos. As garçonetes trabalhavam e, se os homens se interessavam por elas, pagavam. Sem confusão, tudo muito prático.

No começo os donos dos negócios não entenderam o potencial econômico da prática, mas logo perceberam que sem confusão - e com uma divisão do pagamento extra do cliente - as estalagens, em geral, funcionavam melhor assim.

Maddewn, contudo, não participava desse esquema. Ela, por algum motivo que ninguém conseguia entender, se recusava a deitar com um homem sem ter desejo por ele. E, por mais que houvesse sempre outras opções disponíveis, possuir uma mulher contra sua vontade parecia ser algo excitante para boa parte dos viajantes daquelas áreas. Talvez para provar que a moça iria gostar no final ("mesmo que aquela vadia não tenha admitido"), ou simplesmente para demonstrar sua virilidade para os outros homens presentes. Ou quaisquer outros motivos igualmente nobres.

Por causa desse comportamento, Maddewn tinhas sérios problemas com o marido. Ele considerava inaceitável que sua mulher não cumprisse com o papel dela de esposa. Afinal, se tem uma coisa que os homens concordam, é que o casamento é (deveria ser) uma maneira de se conseguir sexo grátis. A qualquer hora. Toda mulher deveria cumprir com suas obrigações: cozinhar, arrumar a casa, cuidar das crianças, lavar roupa e deixar seu marido sexualmente satisfeito. Ela não precisa fazer TUDO - para isso servem as prostitutas - mas tem que estar disponível quando necessário.

Mas com Maddewn não era assim. Continua não sendo assim.

Gilmeroy e Maddewn casaram logo depois do fim da colheita de milho, numa vilazinha distante, próxima de Bandallon. Ele, sapateiro, ela, 12 anos. Nada melhor para seu futuro, já nessa idade, conseguir um casamento com um jovem promissor. Além disso, ele era bonito, Gilmeroy. E tinha algum respeito por sua mulher.

As coisas não começaram muito bem. Sejamos francos, quase nenhum casamento aqui em Westeros começa bem. Os homens não são ensinados a lidar com uma mulher para agradá-la, e as mulheres viram mulheres ainda cheirando a leite materno - por mais que trabalhem desde os 6, 7 anos.

Mas realmente, embora Gilmeroy seja gentil, na cama ele era... despreparado. Foi um começo complicado.

Mas Maddewn engravidou cedo, e seu marido não tinha um apetite sexual muito voraz. Quando ela chegou ao sétimo mês de casada, já estava com 4 meses de gravidez. Foi quando perceberam que ela estava grávida e, de comum acordo, acharam melhor parar com as atividades sexuais para "proteger o bebê". Gilmeroy não entendia nada do assunto - e não tinha mais mãe ou irmãs para lhe ajudar - e Maddewn, bastante esperta, se aproveitou da situação para fugir parcialmente de suas obrigações matrimoniais. No nono mês, ela se mudou para a casa da mãe para ter cuidados mais constantes. O bebê nasceu sem grandes problemas, e 40 dias depois Gilmeroy clamava por seus direitos maritais.

Às vezes Maddewn queria deitar com ele. Às vezes não. E embora Gilmeroy tenha sido compreensivo algumas vezes, em geral ele não aceitava um não como resposta. Assim, constantemente, Maddewn era estuprada pelo marido. Não que isso fosse algo fora do padrão, claro. É apenas um comentário.

Mas ela achava que não tinha que se submeter a isso. "É o sangue da avó", dizia sua mãe. A mãe de Maddewn não entendia qual era o problema da filha. Achava que a filha estava procurando confusão com essa rebeldia sem sentido. Afinal, já diziam os deuses, embora a mulher e o homem, depois do matrimônio,  sejam um só, a mulher deve servir a seu senhor. Ou seja, obedecer seu marido.

Maddewn tinha muito medo dos deuses. Medo e respeito, mas mais medo do que respeito, e boa parte do respeito vinha do medo. E ela não gostava de desafiar as ordens dos deuses. Eles deviam saber o que estavam falando, afinal. Mas ela achava simplesmente absurdo ter que se entregar a um homem sem desejá-lo.

Não porque ela quisesse exercer seu papel de ser humano, exercer sua vontade como uma entidade livre, ou de mostrar ao marido que ela tinha algum poder. Mas sim porque era doloroso. Deitar-se com alguém sem ter vontade, para Maddewn, era extremamente doloroso. Fisicamente doloroso. Claro, seus nervos ficavam destruídos, sua auto-estima caía, sua vontade de viver diminuía. Mas o pior era a dor que ela sentia durante o sexo-não-desejado-mas-consentido tão comum entre homem e mulher. Consentido para que o casamento não acabasse, para que a mulher não apanhasse - e tivesse que se deitar com seu marido de qualquer jeito - para que a vida seguisse o rumo que deveria seguir.

Quando a guarda real passou pela cidade, Maddewn sabia que algo de ruim iria acontecer. A Mão-do-rei estava a caminho de Blackcrown, para averiguar uma questão envolvendo o de sempre: chantagem, traição, insubordinação. Embora a cidade - sejamos francos, mal poderíamos chamar o lugar de vilarejo - fosse pequena, estava na rota da comitiva. Os homens pararam para comer e descansar. Ficaram por 4 horas.

Acontece que na vila quase não havia mulheres. Acontece que os homens da comitiva estavam precisando relaxar. Acontece que depois de algumas bebidas, os guardas costumam perder a cabeça. E aconteceu de Maddewn ser estuprada por 7 soldados sem parar por duas horas seguidas.

Acontece que, embora a Mão-do-rei entenda que seus homens precisam de diversão, entretenimento e relaxamento ocasionais, ele também compreendia os limites do aceitável. E os limites haviam sido totalmente trespassados no momento que os guardas que estupraram Maddewn terminaram por matar seu marido, após ele ter perdido a cabeça ao ver a cena e ter tentado impedir.

Gilmeroy não era um mau marido. Era até gentil, e um pouco bonito.

Que Maddewn tivesse sido estuprada, era algo chato. Mais de uma vez, desagradável. Por sete membros da Guarda Real, por duas horas seguidas, era quase inaceitável. Mas ter passado por isso e ter perdido o marido - que era o pai de seu filho e o sustento da família - era demais.

Sabendo que algo assim não passaria despercebido - e as notícias em Westeros não correm, voam - a Mão-do-rei teria que fazer algum acordo com a moça. Claro, compensações financeiras foram dadas. Dinheiro não é exatamente o problema do reino. Mas como Maddewn poderia continuar vivendo ali, sozinha, sendo lembrada por todos como "aquela-que-foi-seguidamente-estuprada-pela-guarda-real-em-tempos-de-paz"?

Mais algum dinheiro foi distribuído entre os moradores, para que o evento fosse apagado da história, e Maddewn foi convidada a morar em outro lugar.

Quando a comitiva voltava de Blackcrown, ela recebeu suas instruções, e foi assumir seu novo e primeiro emprego como garçonete e ajudante de cozinha e limpeza da Estalagem da Encruzilhada. Uma carroça velha a levou, junto com seu filho sem pai. Maddewn, agora portando sua tatuagem de viúva, obedeceu.

Hoje ela pensa em como era feliz. Sua vida simples, com seu filho, mãe por perto, e apenas um estuprador ocasional, era uma vida muito mais fácil do que a que ela tem agora. Além de trabalhar dez horas por dia, cuidar da criança e da casa, ser estuprada ocasionalmente por desconhecidos, ter adquirido algumas doenças por causa disso, ainda tem que ver seu filho crescer num ambiente nada familiar, entre prostitutas, vagabundos, guardas e outros tipos de escória.

Suas colegas sempre lhe perguntam porque ela não aproveita, já que a vida é assim mesmo, para ganhar um trocado a mais com os visitantes. Mas Maddewn não conseguiria aceitar isso.